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Maxime saboreia Estrelas

Maxime ainda usava o mesmo vestido de seda azul-noite, quando entrou em uma stone-house, não longe da Lexington Avenue, onde funcionava a Michelin USA. …

Maxime ainda usava o mesmo vestido de seda azul-noite, quando entrou em uma stone-house, não longe da Lexington Avenue, onde funcionava a Michelin USA. Ela acomodou-se em sua estação de trabalho, retirou o pequeno livro de notas da bolsa e iniciou a parte mais difícil de sua tarefa de inspetora de restaurantes de New York. Em poucas horas, deveria completar o relatório sobre sua visita ao restaurante do chef mais badalado do momento na cidade, Jean-Georges Vongerichten.

Na tela do laptop surgiu o longo questionário, com itens destinados a avaliar e pontuar os restaurantes visitados. Quase 200 questões minuciosas, sobre conforto, serviço, instalações, equipamentos e, acima e além de tudo, comida.

Maxime consultou suas anotações. Ela havia calculado a distância entre mesas, avaliado o conforto das cadeiras, a qualidade das louças e cristais. Continuou dando notas para a presteza, atitude e apresentação de garções e maitres que a serviram. A seguir, veio o capítulo mais extenso, dedicado ao cardápio, desde as entradas e indo até sobremesas e bebidas. O software não aceita respostas em branco, sendo obrigatório preencher cada uma, com valores de um a dez.

Ao responder a todas as questões, o inspetor deve justificar notas abaixo de três e acima de oito. No caso de notas extremas dadas à comida, surgem novas questões, incluindo descrições meticulosas dos pratos e seus ingredientes.

Finalmente, Maxime completou o questionário e soltou um suspiro de alívio; estava exausta, mas realizada. Foram mais de três horas até alcançar o resultado que a satisfizesse. Ela autenticou o relatório “Jean Georges” e duas ações aconteceram automaticamente – o arquivo foi enviado para um dos terminais no andar de cima da stone-house. E, no mesmo minuto, a cópia de Maxime foi deletada de seu hard-disk.

Encaminhou-se para a saída, acenando para os inspetores, que ainda trabalhavam em seus relatórios. Eles nunca conversavam entre si sobre os restaurantes visitados ou avaliados. Mas cada um tinha consciência que as estrelas que seriam concedidas ou negadas no andar de cima, estavam sendo aguardadas com imensa ansiedade por restauranteurs e chefs, como se suas próprias vidas dependessem delas.

E não era apenas figura de retórica. Muitos ainda tinham presente o que ocorrera em 2002, na Borgonha, quando Bernard Loiseau, do “La Côte D’Or”, foi informado que perdera uma de suas três estrelas. O acabrunhado chef simplesmente dera um tiro na cabeça.

No andar de cima da stone house, o diretor Jean-Luc Naret, que era conhecido como “o Monsieur das estrelas”, ouviu o sinal sonoro de seu computador, avisando que um relatório importante havia chegado.

O trabalho daquele francês de 48 anos era duro e bem pouco gratificante: questionar e mandar refazer as avaliações que chegavam do andar de baixo. Ao contrário de Maxime e seus colegas, ele não se permitia almoçar em restaurantes famosos. Desde que o “The New York Times” publicou seu nome e foto, ele passou a almoçar no escritório e jantar em bistrôs desconhecidos.

Jean-Luc sabia muito bem o que uma estrela no Michelin poderia fazer a um restaurante ou hotel. E quando era o caso de reavaliar uma casa tradicional, de um chef de renome, ele não corria riscos e convocava um inspetor de outra cidade.

E somente quando se sentia plenamente convencido, transformava as notas dos inspetores em estrelas. Sua recomendação ainda passava pelo board, que elaborava as listas da próxima edição.

E, nos dias seguintes, se o relatório de Maxime fosse confirmado, o chef Jean-Georges Vongerichten receberia um envelope pardo, com o carimbo “Confidencial”. Dentro, um precioso documento, comunicando que seu restaurante seria o quarto em New York a ostentar três estrelas do Guia Michelin. E passaria a figurar na constelação de apenas oitenta e dois nomes em todo o planeta.

Maxime entra em seu apartamento em Essex Place, guarda o caderno de notas e joga longe seus sapatos. Diante da geladeira, hesita um momento entre a Moët clássica e a Taittinger Brut Rosé. Decide que aquela é uma noite para um Rosé; com o fascínio de sempre, observa a cascata de bolhas que sobe do fundo da taça.

E, repetindo um certo abade do século 17, saboreia lentamente sua dose de estrelas.

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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