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Carta aberta a uma Sandy sertaneja e desalmada.

Estimada Sandy, linda, jovem, famosa e rica.Você está coberta das suas razões, além de estar coberta de luxo e de roupas de griffe, caríssimas. …

Estimada Sandy, linda, jovem, famosa e rica.Você está coberta das suas razões, além de estar coberta de luxo e de roupas de griffe, caríssimas. Quando sugeriu que devemos virar às costas para os habitantes do Haiti, embora, em sua grande maioria, eles estejam cobertos de lama, caliça, sangue seco e excremento (fazem tudo nas roupas), ficou claro que você é filha do marketing sertanejo, popular, emocionalista e alegremente ignorante.

Na verdade, você disse que devemos todos cuidar dos nossos. Juro que entendi a sua lógica infantil e amoral. Mas, como celebridade de adolescentes e jovens imaturos, não permita que suas convicções de menina criada numa redoma forrada de mau gosto e de dinheiro iluda os seus seguidores.

Não imagina, não é mesmo, Sandy? Eu sei. Vou te dar uma mãozinha, vamos, imagina comigo.

Você nasceu numa família de negros haitianos e tem hoje a sua idade, mas nunca viu na sua vida um dia sequer que não houvesse violência, assassinatos e uma guerra suja entre os miseráveis e os mortos de fome. Imagina, Sandy, grupos paramilitares, ou bandidos simplesmente, entrando na casa dos seus familiares para estuprar, roubar e assassinar, só porque sim. Muitos dos banhos de sangue e execuções sumárias se deram a céu aberto, à luz do dia.

Vamos, Sandy, tem mais. Contudo, há décadas que não existe produção formal no Haiti e a economia está arruinada. A fome e a desnutrição severa devastaram toda a população, toda. Eram milhões de pessoas fracas, doentes e desesperadas, sem emprego, sem comida, sem nada. Sem Deus, sem ordem, sobrevivendo com três reais por dia, quando muito. As balas zunindo, os mortos amanhecendo nas calçadas e as principais vítimas do terror (e de um medo sem fim) eram as mulheres, as crianças e meninas como você, muitas delas, alvo preferido dos estupradores.

Contudo, levavam as suas vidinhas encardidas, pior do que estava, não podia ficar. Podia, Sandy, podia ficar. A terra tremeu com violência inusitada e brutal, ah, meu Deus, ah, meu Deus…  No breu da noite, gritos desesperados. O grito que vem do fundo das tripas, o que gela o sangue de quem ouve. Centenas de pessoas gritando embaixo das vigas de cimentos, dos ferros retorcidos, de toneladas de entulho. Com o passar das horas os gritos foram enfraquecendo, junto com a esperança. Ninguém podia ajudar os feridos e os sobreviventes. Só quem possuía vínculos familiares escavou o entulho com as mãos, deixa que sangrem. Três dias depois, o horror. Na cidade em ruínas não há hospitais, os médicos morreram. Não há comida nem água, centenas de cadáveres incham pelas ruas e empestam toda a cidade com o cheiro universal da morte. Vi mulheres negras correndo pelas ruas, de braços abertos, olhos fora das órbitas, chorando, berrando, dando gargalhadas.

Cuidado com as penalidades carmáticas, Sandy. Na próxima encarnação, você pode nascer no sertão do Piauí, um lugar onde também não tem nada e a terra treme de vez em quando.

 

Autor

Paulo Tiaraju

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