“Ela assassinava pessoas em suas novelas como fazia amor na vida real. Era manipuladora, segregada e obsessiva. Para ela, amor e morte estão intimamente ligados. Seu maquiavélico personagem, Tom Ripley, é o alter ego dela mesma.”
É assim que a escritora Joan Schenkar descreve Patricia Highsmith na biografia que chega às livrarias neste início de ano. Ela diz: “Seus livros são hipnóticos e amorais; rompem as convenções do romance, para perturbar o leitor com sua prosa imitando golpes de karatê”.
Para a biógrafa, em “Estranhos em um Trem” (que gerou a obra-prima hitchockiana, “Pacto Sinistro”), a escritora já ultrapassava os limites da rotina do romance policial. Em “O Talentoso Mr.Ripley”, teria encontrado a fórmula perfeita de drama de suspense, mas a abandonou nos romances seguintes, onde o protagonista persiste em obsessiva negação, fazendo que todos seus relacionamentos no amor e no trabalho acabem em fracassos.
Ao mesmo tempo que admirava Edgar Allan Poe, Patricia Highsmith criou um personagem que mais parece uma criatura do Marquês de Sade: o criminoso intelectual, mestre em dissimulação, mentiras e falsificações. Que oscila entre o bem e o mal, não tem remorsos, se compraz com sua amoralidade – e que sempre acaba impune.
Tom Ripley, o alter ego de Patricia Highsmith, funciona assim: quanto mais sucesso consegue e mais dinheiro arrecada, mais malévolo se torna. Ele se movimenta em um mundo caótico, recheado de intrusões, terror e humor negro; é um perfil de criminoso, que não encontramos em Georges Simenon, Raymond Chandler ou em Dashiell Hammett.
Patricia Highsmith deixou um diário com 8.000 páginas, que chamava de “cadernos”, mas, segundo a biógrafa, foram falsificados, com datas e dados alterados, exatamente como faz o anti-herói, o muito talentoso Mr. Ripley. Ela mentia durante todo o tempo, a amantes, aos amigos, editores, jornalistas – e também ao Imposto de Renda. Era abertamente anti-semita e não se sentia confortável na presença de negros; seu avô possuia uma plantação no Alabama, na época da Guerra Civil, e era dono de mais de 100 escravos. Acreditava que os homossexuais que ocultavam seu comportamento, prejudicavam sua humanidade e suas melhores qualidades. Mas ela não sentia dificuldades em manter três relacionamentos ao mesmo tempo. Ou romper com todos de um golpe só.
A novelista colecionava lesmas. Tinha centenas em casa; gostava de ver como elas se escondiam e carregava algumas quando viajava. Se sentia entediada em festas e jantares; então tirava alguns bichinhos da bolsa e os colocava sobre a toalha de mesa. Detestava sentar-se para comer e os excessos em álcool e fumo acabaram por arruinar sua lendária beleza.
A criadora de Thomas Ripley é uma personagem/charada, mas foi capaz de produzir novelas e contos da mais refinada qualidade literária. Projetou em livros suas tragédias pessoais e estigmas de amarguras e frustrações, como os fracassos de seus relacionamentos amorosos – inclusive com o escritor Arthur Koestler.
Costumava dizer: “Estou sempre amando”. Mas, em seu funeral, em 1995, nenhum amante ou namorada apareceu para pranteá-la. A última pessoa que a viu em vida foi seu contador. Era obcecada com taxas e impostos.
Patricia Highsmith, uma das brilhantes autoras da moderna literatura policial, morreu em um hospital suíço, longe de casa e sozinha, como que encerrada em um casulo. Para quem praticava em seus romances e contos a destruição sistemática das relações humanas, nada mais apropriado – e melancólico. Talvez a melhor tentativa de explicar o enigma Miss Highsmith esteja embutida no título da coletânea de seus contos:
“Nada é o que parecer ser”.

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