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Ela vestia azul-noite

Ainda não era hora do jantar, quando a mulher de trinta anos, com belos cabelos louros e grandes olhos castanhos, entrou no novo “Jean …

div>Ainda não era hora do jantar, quando a mulher de trinta anos, com belos cabelos louros e grandes olhos castanhos, entrou no novo “Jean Georges”, no andar térreo da Trump Tower. Escolheu uma mesa no centro do salão e pediu o cardápio. Usava um elegante vestido de seda azul-noite, pouca maquiagem e nenhuma jóia. Olhou ao redor para o ambiente de paredes totalmente brancas, com altas e elegantes janelas do piso ao teto. Não demonstrou estar impressionada com o décor neo-clássico.

 

O restaurante do chef Jean-Georges Vongerichten é o novo sucesso de Manhattan, lotado desde a inauguração e com entusiasmados elogios nas colunas de gastronomia dos jornais. No entanto, ainda não aparecera nas páginas da bíblia mundial, o Guia Vermelho da Michelin.

Nascido no início do último século, o Guia Michelin já vendeu 30 milhões de exemplares – apenas na França. Editados em vários idiomas, os livrinhos vermelhos listam 45 mil hotéis e restaurantes em 33 países. As classificações por estrelas – raramente constestadas – já produziram grandes sucessos, mas também afetaram a reputação de casas e nomes consagrados. Anos atrás, um chef no interior da França matou-se com um tiro, ao saber que perdera uma de suas preciosas estrêlas.

A credibilidade do guia é baseada em uma simples estratégia, que não mudou em 100 anos. Desde quando André e Édouard Michelin criaram o primeiro batalhão de inspetores e lhes confiaram uma única missão – avaliar hotéis e restaurantes discretamente, pagando as contas como clientes comuns. Como chegam, comem e se retiram sem se identificar, ganharam o apelido de “Anônimos Famosos”. Os mais ácidos preferem chamá-los de “O Pesadelo dos Chefs”.

A discreta dama de vestido de seda azul-noite é uma das inspetoras da Michelin New York. Seu nome é Maxime, adora comer bem e não se impressiona com mesuras ou com pratos rebuscados. Ela sabe que, se for identificada, seu trabalho ficará comprometido e precisará mudar de cidade – ou de profissão. Apenas seu marido advogado sabe o que ela faz. Aos amigos, diz apenas que trabalha como consultora no ramo editorial.

O maître d’ se aproxima e Maxime ainda está estudando o cardápio. Os inspetores do Michelin nunca pedem salada ou sopa (“muito fácil de enganar o paladar”). Eles procuram por pratos complexos, com vários ingredientes de qualidade, para saber como a cozinha lida com eles.

Antes de fazer o pedido, ela questiona:

“ – Como servem o caranguejo ao forno?”

“- É do tipo Peekytoe, servido com chiffonade de estragão, alcaparras e sementes de sésamo branco, assado e coberto com mostarda verde. Acompanha uma salada de peras”, é a resposta.

Ela aprova o caranguejo, mas pede o foie-gras brûlée como entrada e a Truta do Mar do Norte como prato principal.

O homem volta e coloca diante de Maxime uma imaculada travessa branca. Ao centro, uma sólida fatia de purê de fígado de ganso, sobre uma torrada crocante e coberta com fina camada de açúcar caramelizado. Ao redor, cerejas e pistachios tostados, banhados por geléia de vinho do Porto branco.

Ela observa o prato por alguns minutos e começa com o foie-gras, que tem a textura de manteiga fresca, contrastando com o caramelo, as nozes tostadas e a geléia de Porto. Maxime termina o foie-gras e faz anotações no pequeno bloco de capa de couro a seu lado, sobre a toalha de linho cru.

Chega a segunda entrada: caranguejo assado com salada de peras. Ela franze a testa – não é uma combinação fácil. O chef Jean-Georges parece buscar inspirações asiáticas para o típico prato mediterrâneo.

Prova o molho de mostarda verde e depois um naco do crustáceo com salada de peras. Seus grandes olhos castanhos parecem sorrir, mas permanece séria e volta ao seu bloco de notas.

Cinco minutos depois, é o tempo do prato principal. A rara truta do Ártico repousa sobre a rémoulade de agrião, cercada por julienne de maçãs. A primeira garfada de truta sugere a presença de manteiga de limão siliciano e de amêndoas amargas tostadas. As cremosas maçãs verdes equilibram os sabores do prato. A fina caneta de prata escreve mais algumas linhas.

Chega a vez da sobremesa. Os inspetores do guia sabem que este é um momento de verdade. Muitas avaliações favoráveis acabam derrubadas por uma sobremesa equivocada – seja por excesso ou por obviedade.

Maxime bebera apenas água Evian, embora tivesse lido atentamente a carta de vinhos, registrando regiões e safras dos crus e chablis.

Quando o garção chega com a Parfaits du Chef, ela pede um copo de Sauternes de 1989, um ano difícil para este vinho. Depois, se dedica a examinar o prato retangular à sua frente, que tem várias mini-porções, distribuidas pela porcelana branca. A maioria dos chefs gosta de alternar sabores doces e semi-amargos, harmonizando patisserie, frutas e chocolates. O que tanto pode ser uma deslumbrante ou uma desastrosa combinação.

Ela passeia sem pressa pelas sutilezas do prato, começando pelo crépe de morangos silvestres polvilhado com cominho. Depois, belisca o bolinho de baunilha coberto por espuma de cerejas.

Então, testa o sorbet de folhas de limoeiro e desmancha com uma garfada o Gateau aux Noix de Périgord, que revela o caldo quente de chocolate de trufas e nozes.

Para encerrar, prova da pequena taça com refresco de amoras, perfumado com lavanda da Provença. Paga a conta com seu cartão corporativo, onde não aparece o nome Michelin. Ajeita o vestido de seda azul-noite e se dirige para a saída, sem demonstrar emoções no rosto levemente corado.

Ela havia notado que o chef Jean-Georges Vongerichten a observava discretamente, através da vigia da porta da cozinha.

O verdadeiro trabalho de Maxime ainda nem havia começado. 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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