Nascido no início do último século, o Guia Michelin já vendeu 30 milhões de exemplares – apenas na França. Editados em vários idiomas, os livrinhos vermelhos listam 45 mil hotéis e restaurantes em 33 países. As classificações por estrelas – raramente constestadas – já produziram grandes sucessos, mas também afetaram a reputação de casas e nomes consagrados. Anos atrás, um chef no interior da França matou-se com um tiro, ao saber que perdera uma de suas preciosas estrêlas.
A credibilidade do guia é baseada em uma simples estratégia, que não mudou em 100 anos. Desde quando André e Édouard Michelin criaram o primeiro batalhão de inspetores e lhes confiaram uma única missão – avaliar hotéis e restaurantes discretamente, pagando as contas como clientes comuns. Como chegam, comem e se retiram sem se identificar, ganharam o apelido de “Anônimos Famosos”. Os mais ácidos preferem chamá-los de “O Pesadelo dos Chefs”.
A discreta dama de vestido de seda azul-noite é uma das inspetoras da Michelin New York. Seu nome é Maxime, adora comer bem e não se impressiona com mesuras ou com pratos rebuscados. Ela sabe que, se for identificada, seu trabalho ficará comprometido e precisará mudar de cidade – ou de profissão. Apenas seu marido advogado sabe o que ela faz. Aos amigos, diz apenas que trabalha como consultora no ramo editorial.
O maître d’ se aproxima e Maxime ainda está estudando o cardápio. Os inspetores do Michelin nunca pedem salada ou sopa (“muito fácil de enganar o paladar”). Eles procuram por pratos complexos, com vários ingredientes de qualidade, para saber como a cozinha lida com eles.
Antes de fazer o pedido, ela questiona:
“ – Como servem o caranguejo ao forno?”
“- É do tipo Peekytoe, servido com chiffonade de estragão, alcaparras e sementes de sésamo branco, assado e coberto com mostarda verde. Acompanha uma salada de peras”, é a resposta.
O homem volta e coloca diante de Maxime uma imaculada travessa branca. Ao centro, uma sólida fatia de purê de fígado de ganso, sobre uma torrada crocante e coberta com fina camada de açúcar caramelizado. Ao redor, cerejas e pistachios tostados, banhados por geléia de vinho do Porto branco.
Ela observa o prato por alguns minutos e começa com o foie-gras, que tem a textura de manteiga fresca, contrastando com o caramelo, as nozes tostadas e a geléia de Porto. Maxime termina o foie-gras e faz anotações no pequeno bloco de capa de couro a seu lado, sobre a toalha de linho cru.
Chega a segunda entrada: caranguejo assado com salada de peras. Ela franze a testa – não é uma combinação fácil. O chef Jean-Georges parece buscar inspirações asiáticas para o típico prato mediterrâneo.
Prova o molho de mostarda verde e depois um naco do crustáceo com salada de peras. Seus grandes olhos castanhos parecem sorrir, mas permanece séria e volta ao seu bloco de notas.
Cinco minutos depois, é o tempo do prato principal. A rara truta do Ártico repousa sobre a rémoulade de agrião, cercada por julienne de maçãs. A primeira garfada de truta sugere a presença de manteiga de limão siliciano e de amêndoas amargas tostadas. As cremosas maçãs verdes equilibram os sabores do prato. A fina caneta de prata escreve mais algumas linhas.
Chega a vez da sobremesa. Os inspetores do guia sabem que este é um momento de verdade. Muitas avaliações favoráveis acabam derrubadas por uma sobremesa equivocada – seja por excesso ou por obviedade.
Maxime bebera apenas água Evian, embora tivesse lido atentamente a carta de vinhos, registrando regiões e safras dos crus e chablis.
Quando o garção chega com a Parfaits du Chef, ela pede um copo de Sauternes de 1989, um ano difícil para este vinho. Depois, se dedica a examinar o prato retangular à sua frente, que tem várias mini-porções, distribuidas pela porcelana branca. A maioria dos chefs gosta de alternar sabores doces e semi-amargos, harmonizando patisserie, frutas e chocolates. O que tanto pode ser uma deslumbrante ou uma desastrosa combinação.
Ela passeia sem pressa pelas sutilezas do prato, começando pelo crépe de morangos silvestres polvilhado com cominho. Depois, belisca o bolinho de baunilha coberto por espuma de cerejas.
Então, testa o sorbet de folhas de limoeiro e desmancha com uma garfada o Gateau aux Noix de Périgord, que revela o caldo quente de chocolate de trufas e nozes.
Para encerrar, prova da pequena taça com refresco de amoras, perfumado com lavanda da Provença. Paga a conta com seu cartão corporativo, onde não aparece o nome Michelin. Ajeita o vestido de seda azul-noite e se dirige para a saída, sem demonstrar emoções no rosto levemente corado.
Ela havia notado que o chef Jean-Georges Vongerichten a observava discretamente, através da vigia da porta da cozinha.
O verdadeiro trabalho de Maxime ainda nem havia começado.

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