Flocos de neve pousando suavemente nas cúpulas de vidro, o espoucar das rolhas das Moët, o tilintar de cristais e a orquestra murmurando Richard Rodgers e Cole Porter. Assim são as minhas lembranças dos “brunchs” de domingos no “Tavern on the Green”, ao final dos anos 70.
O “The New York Times” noticiou, no outro dia, que o restaurante, um patrimônio da cidade, requereu falência, alegando prejuízos que podem chegar a 50 milhões de dólares. Ao que parece, os domingos de inverno em Manhattan nunca mais serão os mesmos.
O prédio original do “Tavern” no Central Park data de 1870 e foi construído como um prosaico estábulo de ovelhas. Que eram usadas pela prefeitura para aparar a grama do novo parque. Por muito tempo, as ovelhas cumpriram a função, com mais eficiência do que os recém inventados cortadores de grama, que produziam fumaça e muito barulho. Até que os moradores da vizinha rua 67 reclamaram que as ovelhas estavam almoçando os jornais entregues em suas portas.
Anos mais tarde, o prédio vitoriano foi reformado ao custo de muitos milhões de dólares, ganhando pavilhões de cristal, desenhados por Raymond Loewy, o mesmo criador dos Studebakers dos anos 50 e 60. Foi inaugurado com pompa e circunstância em 1934, por uma figura lendária da história da cidade, o prefeito Fiorello La Guardia. Em pouco tempo, transformou-se em local favorito para celebrações de ricos e famosos. A revista “The New Yorker” descreveu assim a festa de fim de ano de 1970:
“Com um golpe de sabre, o prefeito Abraham Beame abriu a garrafa de champanha Salmanazar, de 30 litros, que chegara de Paris em uma poltrona da primeira classe da Air France. A seguir, foi servido o maior sundae do mundo – com 250 quilos de chocolate, baunilha, cerejas em maraschino e milhares de morangos frescos colhidos pela manhã. Ao final, 50 garções entraram cantando em coro e carregando o imenso bolo, reproduzindo o Central Park, com árvores de trufas mentoladas e lagos de champanha.”
Nas décadas seguintes, o "Tavern on the Green” foi um ícone de New York e cenário de sonho para festas de casamento e jantares de Ano Novo. O que lhe rendeu, por cinco anos consecutivos, o título do restaurante mais lucrativo dos Estados Unidos. Para milhares de visitantes, era obrigatória a visita para o chá das cinco, após as compras no Macy’s e antes do show na Broadway.
De forma inevitável, em tempos de pós-crise, mudanças estão alterando a constelação dos grandes restaurantes de Manhattan. Há alguns anos, foi a vez dos franceses “La Cote Basque” e “Lutece” cerrarem as portas. Em 2001, desapareceu o inacreditável “Windows of the World”, na queda das torres gêmeas. Enquanto isso, o “Maxwell’s Plum” vem perdendo parte de seu velho charme e o classudo “21” já permite clientes sem gravata. Falido, o "Tavern on the Green” trocará de mãos em 2010 e vai ser totalmente reformado.
Um a um, os lendários restaurantes que fizeram história em New York estão morrendo. O consultor de restaurantes Clark Wolf tenta explicar, dizendo que os consumidores mais conservadores estão revendo seus hábitos. Cedem seus lugares nos restaurantes com decoração “kitsch” (e altos preços) aos turistas e novos ricos. E, no lugar de aventuras gastronômicas, preferem a confort food ao estilo Julie Child.
Mas resta uma pergunta sem resposta: onde encontrar os amigos para o “brunch” nos domingos com neve, ouvindo a orquestra tocar "Love for Sale" e observando um improvável Woody Allen, na mesa ao fundo, bebericando entediado uma taça de champanha?

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