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Um telefonema para Marselha

Os primeiros ventos do outono sopravam forte, desfolhando os plátanos e castanheiras ao longo do Canal Saint Martin. Um sedã de modelo antigo estaciona …

Os primeiros ventos do outono sopravam forte, desfolhando os plátanos e castanheiras ao longo do Canal Saint Martin. Um sedã de modelo antigo estaciona no calçamento de pedras e um homem desce e caminha com pressa. Tem aparência mediterrânea e usa sobretudo de lã cinza e um cachecol ao redor do pescoço. Diante de uma mansarda próxima à Rue des Recólettes, olha disfarçadamente para os lados e entra pela porta alta de carvalho. Ele ainda trazia consigo a pasta de couro preto.

Poucos minutos depois, as cortinas do primeiro andar movem-se, como se alguém tentasse saber o que acontecia na rua. Mas não havia transeuntes, apenas um ou outro clochard, tentando pescar o almoço do dia. No entanto, um olhar atento perceberia o vulto imóvel atrás de um grande plátano. Vestia uma velha capa de gabardina e parecia entretido na leitura do jornal, mas não tirava os olhos das janelas do primeiro andar da mansarda.

Lá dentro, a pasta de couro preto parecia inofensiva, largada sobre a grande mesa de jantar. Mas o que ela continha poderia perturbar pessoas importantes que pagariam um alto preço para ver aqueles papéis virarem cinzas. O homem mediterrâneo se serviu de uma pequena garrafa no aparador e espiou mais uma vez pela janela. Não viu nada ou alguém que pudesse ser uma ameaça. Mesmo assim, respirava pesadamente, inquieto, enquanto pensava nas alternativas que lhe restavam.

Naquele momento, o maitre do restaurante do outro lado do canal desligou o telefone e empalideceu. Suas mãos tremiam quando tomou de um só gole um copo de eau-de-vie. Ele era um veterano de guerra e não se assustava facilmente, mas seu pior pesadelo se transformara em realidade. Pessoas estavam em perigo pelo erro que ele deixara que acontecesse. E agora era tarde demais.

A tarde ia adiantada e as longas sombras do outono escureciam as alamedas do canal, quando a porta da mansarda se abriu e o homem mediterrâneo saiu para a rua. Entrou no sedã, carregando a pasta de couro preto. Do outro lado, a figura com a capa de gabardina, dobrou o jornal e enfiou-se em uma rua lateral, em busca de um café com telefone público.

Ele sabia o que estava por acontecer e precisava avisar Marselha.

Teve que esperar até que o telefone tocasse muitas vezes antes de ser atendido. Aquele era um número pouco usado, do telefone que ficava nos fundos do restaurante de peixes da rue de Petit-Puis. O local era movimentado, frequentado por barulhentos pescadores, contrabandistas e marinheiros de reputação duvidosa. Uma cobertura adequada para as verdadeiras atividades que aconteciam no andar de cima.

O telefone foi atendido e o homem de gabardina reconheceu o carregado sotaque de seu contato. Ele disse o que tinha a dizer e desligou. Suas mãos estavam suando frio e sabia porque. Olhou o relógio, calculando o tempo que a informação levaria para chegar até a mesa redonda do primeiro andar.

Ali, quase na penumbra, sentava-se sòzinho, aquele que no porto de Marselha era conhecido apenas como “Le Dédou” Faustin. Um homem que tinha o poder de mudar a vida de muita gente, apenas com um franzir de sobrancelhas.

O homem de gabardina se apoiou no balcão de zinco e pediu um pastis. Agora, já podia respirar aliviado. Em menos de uma hora, tudo estaria terminado, mas ele não sentia remorso pelo que ia acontecer.

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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