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Cavalos Quebrados

Era um dia pesado de novembro, havia um cheiro de grama molhada no ar, mas não se notavam sinais de chuva. Meu avô colocou …

Era um dia pesado de novembro, havia um cheiro de grama molhada no ar, mas não se notavam sinais de chuva. Meu avô colocou a mão ossuda em pala sobre os olhos, ficou um tempo em silêncio, olhando para as nuvens que se formavam acima do Cerro Pelado. Eu e o primo Adauto estávamos esperando a hora de ir buscar as vacas e seus terneiros, mas o avô falou que ia cair uma tormenta braba e nos mandou entrar em casa. Então, se virou e gritou para os peões recolherem o gado e abrigarem os potros nas cocheiras.

O coronel Picurra sabia ler os sinais que a natureza envia quando um desastre está por acontecer. Como os bichos no campo, ele pressentia perigos que rondavam a fazenda, muito antes que a gente desconfiasse de alguma coisa. Por vezes, era um leão baio que matava os cordeiros, ou raposas que devastavam o galinheiro. Mas o pior eram as enxurradas, que desciam pela encosta da serra, derrubando árvores e arrastando vacas e terneiros para as águas enfurecidas do arroyo Camaquã.

Meu primo e eu sentamos à mesa da cozinha, para o café de tição e as fatias de pão de milho, quando desabou uma saraivada, estalando as telhas da casa e semeando o pânico entre cachorros, gansos e patos. O céu ficou escuro e reparei que a avó Ana Augusta e minha mãe se benziam de olhos fechados. Deviam estar rezando para Santa Bárbara e São Jerônimo, que juravam ser a melhor proteção contra tempestades e trovoadas.

Corri para a janela e vi o terreiro branco de pedras de gelo, quase do tamanho de ovos de galinha. Meu avô permanecia imóvel, debaixo do grande cinamomo, a água escorrendo das abas do chapéu negro, enquanto os peões corriam para se proteger nos galpões. O rosto do avô Picurra parecia de pedra, duro e fechado, mas não por causa da chuva de granizo. Ele estava com o pensamento nos cavalos que corriam pelo campo, desamparados debaixo do temporal.

Tão rápido como chegou, a tormenta se foi e as nuvens se abriram. Haviam galhos de árvores tombados no terreiro e a água corria como cachoeira das calhas dos telhados. Os peões soltaram o gado e se ocuparam em limpar os estragos.

O primo Adauto cutucou minhas costelas, apontando a trilha no campo que levava aos capões de mato. Meu avô ia na frente, carregando a Winchester de repetição, seguido pelo negro Edu, com um laço em cada mão. Senti a presença de minha mãe e da avó Ana Augusta junto a nós. Elas tinham os olhos fixos no ponto onde os dois homens entraram no mato. Olhei para elas, tentando entender o que estava acontecendo.

A avó falou, como se tivesse pensando alto. Disse que o coronel estava cuidando de salvar os animais caídos no arroio. E que o negro Edu ia laçar os bichos e amarrar o laço nos troncos de árvores para que não fossem arrastados pela correnteza. E as duas mulheres se afastaram para cuidar da janta dos peões.

Adauto e eu ficamos sentados na soleira da porta, esperando pela volta do avô. Já estava ficando escuro e mal deu para ver vacas e terneiros correndo assustados do mato, em busca do campo aberto. Mas não apareceu nenhum cavalo. Quando nos chamaram da cozinha, sentamos em silêncio à mesa, mexendo nos pratos, sem gosto nem fome.

De súbito, espoucaram tiros dentro do mato, o som rolando pelo campo, igual a trovões. Minha mãe e minha avó trocaram um olhar que não consegui entender. Eu devia parecer assustado, pois a mãe sentou-se ao meu lado, tentando me acalmar:

“ – Não fica nervoso, foi teu avô que atirou para correr com os gatos do mato.”

Naquela noite, no casarão silencioso, ouvia-se o ranger da cama de ferro de meu avô. Ele estava inquieto, andando para um lado e outro no quarto, sem conseguir dormir.

No dia seguinte, seu rosto estava marcado por olheiras. Sentou-se à grande mesa da cozinha e contou o que tinha acontecido. Encontrou tres garanhões caídos dentro do Camaquã, entalados entre as árvores e com as patas quebradas. Engatilhou a Winchester e atirou na cabeça de cada um deles.

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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