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Músicos nunca dormem (I)

Completaram-se nesta semana os 40 anos da primeira apresentação do mais conhecido tango de Astor Piazzolla, “Balada para un loco”. No dia 15 de …

Completaram-se nesta semana os 40 anos da primeira apresentação do mais conhecido tango de Astor Piazzolla, “Balada para un loco”. No dia 15 de novembro de 1969, no palco do Luna Park, no centro de Buenos Aires, uma jovem e desconhecida cantora, tentava se apresentar diante de um público impaciente que a vaiava e mandava lavar pratos. Mas quando Amelita Baltar recitou os primeiros versos de Horacio Ferrer, a multidão emudeceu:

Las tardecitas de Buenos Aires tienen esse que sé yo, viste?

Salís de casa por Arenales, lo de siempre en la calle y en vos,

cuando de repente, de atrás de un árbol, me aparezco yo…”.

Sua apresentação foi ovacionada, mas os arranjos inovadores de Piazzolla não sensibilizaram os jurados do festival que preferiram dar a vitória a “Hasta el ultimo trem”, um tango ainda ao estilo dos anos 40. Mas, “Balada para un loco” começava ali uma carreira consagradora, vendendo centenas de milhares de discos na Argentina e em metade do mundo.

A partir de então, Piazzolla/Ferrer compõem uma série de tangos-baladas, que reviveram e rejuvenesceram o tango clássico. O uruguaio Horácio Ferrer se revela um extraordinário letrista, com textos poéticos, que não renegam a alma dos velhos tangos. Ao contrário, ele os homenageia com versos pontuados com o mais genuino lunfardo portenho. Mas, em lugar dos sofridos melodramas da música arrabalera, Horácio Ferrer apresenta poemas em forma de recitativos. Como faz em “Fabula para Gardel”, onde um menino pergunta ao pai, um velho e sofrido tanguero, quem é o fantasma tan arisco y empecinado chamado Gardel.

A resposta é um evocativo de emocionadas lembranças, que em certos momentos parece ser inspirado em Garcia Lorca ou Antonio Machado.

Quando o pai responde, descrevendo o fantasma gardeliano que o visita nas madrugadas, ele divaga:

La corbata es de claveles encendidos,

para abrigar los cascabeles* de su voz.

Y dos zapatos, muy de peregrino, que no son zapatos,

sino que son caminos”.

Na mesma onda de tangos-baladas, Horacio Ferrer se une a figuras míticas, como Osvaldo Pugliese, para compor “Yo payador me confiesso”, e com Anibal Troilo faz “Tu Penultimo Tango”, todos musicados por Astor Piazzola, ora com um singelo solo de guitarra, ora por uma bateria de bandoneones.

Em 1976, ele compõe mais canções recitativas, que fazem imediato sucesso: “El Gordo Triste” e “Balada para mi Muerte”, este talvez o mais machadiano de seus tangos/poemas:

 

“Moriré en Buenos Aires, será de madrugada,

guardaré mansamente las cosas de vivir,

mi pequeña poesía de adioses y de balas,

mi tabaco, mi tango, mi puñado de esplín**.

 

Moriré en Buenos Aires, será de madrugada,

que es la hora en que mueren los que saben morir.

Flotará en mi silencio la mufa*** perfumada

de aquel verso que nunca yo te supe decir”.

 

 

Neste domingo, 29 de novembro, o poeta Horacio Ferrer e a cantora Amelita Baltar, se reunem no Parque Centenário, em Buenos Aires, com figuras mitológicas da música argentina para celebrar os 40 anos de “Balada para un loco”. Com certeza, os bandoneones dos velhos tangueros estarão chorando pelo grande ausente, Astor Piazzolla.

*     Guizos, chocalhos.

 **   Do inglês, spleen.

 *** Mau humor.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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