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O motorista que lia Borges

Pelo lado de fora, o táxi amarelo-e-preto parecia igual aos milhares que atravancam as ruas de Buenos Aires ou disparam velozes por suas avenidas …

Pelo lado de fora, o táxi amarelo-e-preto parecia igual aos milhares que atravancam as ruas de Buenos Aires ou disparam velozes por suas avenidas e bulevares. O homem ao volante usava longos cabelos brancos, escovados com apuro, e o interior de seu táxi não era nem um pouco comum. No painel, um sofisticado navegador por GPS e nos bolsos dos bancos, os jornais do dia e muitos livros.

Dei o endereço ao motorista e me detive no conteúdo da biblioteca à minha frente: livros de poesias de Julio Cortázar, contos de Adolfo Bioy Casares, “El Libro de los Seres Imaginarios” e “Historia Universal de la Infamia”, de Jorge Luis Borges.

Imediatamente, passei a prestar mais atenção ao motorista e seu táxi. Era um carro antigo e bem rodado, mas cheirava a novo e o couro do estofamento parecia ter sido lustrado há pouco. O motorista dirigia com perícia, parando nas faixas de pedestres, mesmo com o sinal verde. No rádio, uma sonata de Brahms tocava em baixo volume.

Tentei iniciar uma conversa, mas já havíamos chegado ao número 1860 da Avenida Santa Fé. O motorista recebeu o dinheiro da corrida, olhou a fachada restaurada do El Ateneo Gran Splendid e me entregou seu cartão, dizendo:

“ – Não deixe de visitar a seção de história da América Latina. Eles têm livros que ajudam a entender a Argentina e os argentinos”.

Depois de horas tantas, saí com minhas sacolas para a rua ensolarada, tentando encontrar um táxi. Me lembrei do cartão que havia enfiado no bolso. Havia o nome, “Juan”, um número de telefone celular e uma citação em itálico:

“Uma forma de caminhar pela vida”.

Demorei algum tempo até reconhecer a resposta que Jorge Luis Borges deu a um jornalista francês, que pedia insistentemente uma definição sobre o tango. Eu havia encontrado um motorista de táxi que amava os livros.

Nos dias seguintes, Juan foi um eficiente intérprete dos encantos e mistérios de Buenos Aires. Rodando em seu carro, conheci a história de prédios e monumentos e visitei barrios afastados. Percorri antigas ruas antigas de San Telmo e os recantos ocultos de Abasto, onde viveram os grandes tangueros Carlos Gardel, Anibal Troilo e Libertad Lamarque. E ainda ouvi divertidas estórias, recheadas de ironia, sobre as manias e obsessões dos argentinos.

Ao passar pela Avenida del Libertador, paramos para admirar a Torre dos Ingleses, homenagem que os britânicos prestaram em 1910 ao centenário da independência argentina. Seus sinos imitam os da Abadia de Westminster e, de cada lado da torre, pode-se ver os emblemas da Grã Bretanha, Irlanda, Escócia e do País de Galles. Na época da Guerra das Malvinas, acometido de fervor nacionalista, o governo rebatizou o monumento como Torre Monumental. No entanto, tanto os argentinos como os turistas continuam a chamá-la de Torre de Los Ingleses.

A irreverência portenha tampouco não perdoa os fiascos e vexames de ícones populares, como Diego Maradona. Conta-me Juan que o ex-craque ganhou recentemente de seus admiradores uma montanha de croissants com creme, que devorou em minutos, acabando por ser internado na UTI.

“El pibe se morfó a todo”, ri Juan. E conclui:

” – Maradona é um escândalo. Mas é um escândalo que vende bem”.

Naquele dia, soube que Juan é torcedor fanático do Boca Juniors e seu nome de batismo completo é Juan Domingos, legado do pai peronista. Desde então, evitei falar em futebol e política.

Mas, em determinado assunto, nos demos às maravilhas: comida. Contei de minha fascinação pelos bodegones de Buenos Aires e no táxi de Juan conheci alguns endereços pouco conhecidos, onde sobrevive a autêntica culinária argentina. Quando mencionei que gostava de morcilla, ele me levou a um pequeno restaurante, quase escondido, em um casarão no bairro de Chacarita. Convidado a me fazer companhia no almoço, ele resistiu, mas acabou aceitando e saiu a procurar um lugar para estacionar seu precioso táxi.

A “Cervecería Lopez” existe desde 1944 e se tornou conhecida pela abundância das porções de especialidades da cozinha ítalo-espanhola. Chorizos e peças inteiras de jamon pendem do teto e das vigas de madeira. Juan chegou, mostrando ser um cliente habitual, pois foi saudado amistosamente pelo homem de gravata borboleta atrás do balcão. Três minutos depois, aterrissa na mesa um prato de jamon serrano, cortado à perfeição em finíssimas fatias rosadas. Quando chegam os copos de cerveja alemã, meu motorista-guia avisa que seu taxímetro havia sido desligado. Pouco tempo depois, começam a chegar travessas de morcillas doces, salgadas e à moda de Burgos.

Dias mais tarde, Juan chega para me levar ao aeroporto e vejo que olhava encantado as belas fachadas da Avenida Alvear. No caminho para Ezeiza, ouço as lendas e casos que a cidade conta sobre aquelas mansões do final do século 19. Como a que diz que nos anos 1890, foram construídos os três palácios, que hoje ocupam o quarteirão entre as Avenidas Alvear e Posadas e as ruas Montevideo e Rodriquez Peña. Sua arquitetura segue o estilo Belle Époque, reproduzindo o Palais de Marais, em Paris, com mármores italianos, estatuária francesa e grades vindas da Áustria.

No palácio da direita foi instalada a Nunciatura e Embaixada do Vaticano, onde se encontra até hoje. No centro, o Palácio Duhau, que foi residência do ministro Luis Duhau e agora está transformado no luxuoso hotel Park Hyatt. Do lado da Rodriquez Peña, a antiga Residência Duhau parece estar em ruínas, mas se diz que seu interior e mobiliário estão impecavelmente preservados. Na mansão, mora sozinha uma herdeira da família Duhau, em companhia de seus três cães pastores, um velho jardineiro e das centenas de pássaros que fazem ninho nos grandes carvalhos dos jardins.

Juan conclui a narrativa e se vira para me contar os apelidos que os bonaerenses deram aos três palácios:

“ – Dizem que é a Santíssima Trindade. O Palácio Duhau é “o Pai”, a Residência, “O Filho”, e a casa do núncio, “O Espírito Santo”.

E ri muito, se divertindo com aquela estranha estória de grandeza e decadência, que parece ter fugido de um conto de Borges.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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