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Abaixo o verniz, viva Fernando Pessoa

O que nos distancia da idade média são alguns segundos no relógio da história do homem moderno e, da idade média para as cavernas, …

O que nos distancia da idade média são alguns segundos no relógio da história do homem moderno e, da idade média para as cavernas, mais alguns minutos. Não espanta supor que, por baixo da fina camada de verniz civilizatório, ainda vivam criaturas cujos instintos primitivos se manifestam com violência, com a diferença que agora o porrete fica um pouco mais longe da mão para quem vive acima do verniz. Para nosso alívio, o chacal dos que vivem acima do verniz ruge, late e morde, mas só na imaginação. Na prática não faz nada e ainda se arrepende depois que a vingança imaginária é consumada. Mesmo nossos pensamentos mais secretos e sombrios são rapidamente dissolvidos porque, de algum modo, somos testemunhas de nós mesmos, entre Deus e o Diabo na Terra do Sol.

A revista Veja da semana passada publicou uma extensa matéria sobre comportamento. É óbvio que se fixou em clichês de todo o tipo de grosserias praticadas por celebridades para, de modo conclusivo, externar a opinião de uma autoridade antropológica, outra sociológica e outra comportamental. Nas três especialidades, quase sempre estariam cobertos de razão se a vida fosse uma linha reta. Mas não é, quem é do ramo* sabe disso. A vida é de viés. É de verêdas. É fácil exemplificar todas as sacanagens do primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi e sua lubricidade senil. Fácil porque ele é escracho.

A matéria como um todo é um manual de boas maneiras bem próximo aos conselhos de Glória Kalil, mas, e a loucura? E a ironia maliciosa, o dano (i)moral? E quando a palavra endereçada para te esculhambar sai de lábios sorridentes?

Na sociedade descrita por Veja, vivemos todos num Bistrô parisiense. Não estamos no Brasil pardo da Fundação Sarney, ou no Rio Grande agropecuário, ambiente em que prospera o pensamento refinado, humano, afetivo e uma excitante atmosfera para o exercício das sutilezas e da inteligência. Não. A Veja e sua discutível autoridade editorial trata seu leitores como se todos fossem cursilhistas, ou quem sabe, adeptos de protocolos cujo verniz é feito para a prática da fantasia infantil, como Alice no país das maravilhas. Mas o que estou fazendo? Serei o apóstolo da selvageria, da barbárie? Imagina. Deus me livre. Mas insisto que todos deveriam ler mais Fernando Pessoa. O verniz da civilização, em certa medida deveria cair, como a tarde feito um viaduto. Como caiu o muro de Berlim. Ou no mínimo é preciso abrir furos e canais no verniz, de modo que os “civilizados” pudessem despejar educação por ali, descer os médicos por ali, mandar recursos sanitários lá para baixo, para que as crianças que vivem abaixo da linha do verniz não morram mais de diarréia. Em contrapartida os poetas que também vivem lá embaixo irão declamar Fernando Pessoa para esta gente bonita, limpa e boazinha que vive aqui, em cima do verniz. Abaixo o verniz, viva Fernando Pessoa, como diria minha avó que sempre foi panfletária.

* Do ramo estradeiro, calejado, sabedor.

 

Autor

Paulo Tiaraju

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