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Tempos vividos, não idos

Meu “irmão” Orlando Carlos Gómez de Souza nasceu em Lavras do Sul em 1938, fez curso secundário em Bagé e Porto Alegre, onde se …

Meu “irmão” Orlando Carlos Gómez de Souza nasceu em Lavras do Sul em 1938, fez curso secundário em Bagé e Porto Alegre, onde se formou engenheiro eletricista pela Ufrgs. Sua carreira profissional na Petrobras, no Rio, especializou-o em Refinação de Petróleo. Consultor de grandes empresas, transferiu conhecimentos, inclusive adquiridos em importantes cursos nos EUA, dando aulas na UFRJ e em instituições particulares.

Quando estudante, pertenceu ao conjunto de danças do CTG 35 (Centro de Tradições Gaúchas). Como ator, atuou em “Rondó 58”, no Teatro de Equipe, e, pronta a casa de espetáculos, ainda estudante, montou manualmente um sofisticado quadro de luz.

Na minha crônica anterior, escrevi que em 1957, quando fui a primeira vez para Porto Alegre, “gol” era “golo” e vaso sanitário, “patente”. Minhas lembranças de vocábulos usados no Sul mexeram fundo nas memórias gaúchas do meu irmão Cajito. Mexeram tanto que ele me brindou com um e-mail:

“Mario C. P. de Almeida:

Pão com chimia cai bem no café da manhã, mas para o café da tarde nada como uma boa cuca (também do alemão: kuchenbrot). No hotel, ao dormir, você provavelmente deixava algum pertence no bidê (abajur) ao lado da cama. Bidê era também um tipo especial de pipa ou papagaio com a aparência de dois cubos interligados – mais convencionais eram as nossas pandorgas.

Nisso de futebol jogávamos em canchas com botinas de boa(s) trava(s) nos pé(s); protegíamos os tornozelos com tubijeiras (do castelhano tobilleras, com a pronúncia uruguaia do "ll") – alguns as vestiam por cima das meias, pois consideravam que a faixa branca acima da botina dava um ar "profissional". Não gostávamos dos que faziam muita paloma, ao invés de jogar a sério e de forma coletiva, embora uma meia-lua (drible da vaca) bem aplicada ou um toque de chaleira (de letra) fossem apreciados. Algo assemelhado à famosa folha-seca de mestre Didi, porém mais por erro do que intencional, era um chute de rabiosca (rabar era também sinônimo de errar em bola ou furar).

Tendo outro significado para bicha, chamávamos nossos gays de marrecas. Finalmente, se meu fígado não protestar, bebo um trago de canha pelas memórias.

Beijos

Orlando Carlos”

Mudando de assunto (ou não), Arlindo Ferreira de Souza, estancieiro por herança e engenheiro civil por formação, foi quem acoitou este cronista, fugitivo dos beleguins do golpe de 1964, em sua estância, entre Lavras do Sul e Bagé. Ele e a esposa, Maria Del Carmem Gómez de Souza, quando as estradas gaúchas já estavam liberadas das prisões, deixaram-me de carro, em São Paulo, eles na busca de um filho de destino ignorado.

Mudando para outro assunto (ou não), começo dos anos de 1970, a atriz Dina Sfat teve sua terceira filha no Hospital São Lucas, em Copacabana, onde eu morava a menos de 100 metros. Levei para ela um buquê de flores e dei um conselho:

– Encerra agora a maternidade, Dina, ou vem aí a grande vingança.

– Que vingança, Mario?

– Você esqueceu que seu marido tem 4 irmãos e nenhuma irmã?

– Esqueci mesmo. Parei!

Voltando ao irmão Orlando Carlos, no Teatro Villa Lobos, no Rio, o Grupo Galpão, de Belo Horizonte, veio apresentar “O Inspetor Geral”, numa versão do Grupo dirigida por Paulo José.

Aurea, minha mulher, e a filha Rachel foram comigo assistir ao espetáculo.

Quando apresentei a filha para Maria Del Carmen, mãe do Pablito, ela perguntou:

– Você é filha do Mario?

– Sou.

– Então, você é a minha neta. O Mario é o meu sexto filho.

Naquela noite, por decreto materno da Mamita, agreguei em definitivo aos biológicos Célia, Rachel e Eduardo os afetivos Luiz Alberto, Paulo José (Pablito), Orlando Carlos, Arlindo Fábio e Antônio Cláudio, uma fraternidade agora oficial.

Arlindo e Mamita se foram, as lembranças, não. Doces lembranças.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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