Para que serve um editor? Cinco editores pretendiam esclarecer a pergunta-desafio, na promoção do Clube dos Editores na Feira do Livro de Porto Alegre.
Geraldo Huff, experiente profissional da área, hoje na Artmed, uma das maiores editoras nacionais, deu uma aula: primeiro, deve ser reconhecido o público a ser atingido, depois escolhido o conteúdo. Publicar o quê, para quem, com qual finalidade? A Artmed, por exemplo, começou com um título de Cyro Martins em Psicanálise, e não saiu mais da área da educação e da saúde. No entanto, Henrique Kipermann, o fundador da editora, percebeu que havia também muitos títulos inexistentes em língua portuguesa e que precisavam ser importados. Por que não publicar aqui mesmo? Criou então o selo Bookmann. Logo, um editor precisa direcionar o seu catálogo para o seu público. E ser fiel aos dois.
O que mais o editor precisa saber? Tudo. A começar pelos originais. O editor deve ter um grupo de pareceristas que o ajudem a avaliar um original. Saber se ele está em uma linguagem adequada para o público a que se destina. O texto deve passar por um revisor muitas vezes. Deve ser editorado em específicos formatos e programas, que tanto servem para manipulação de textos, quanto de imagem. O editor deve saber avaliar um projeto gráfico, se ele é adequado, se interessará ao público. Deve conhecer a função dos textos das orelhas, contracapas, e deve conhecer também como funciona a distribuição. Ele é múltiplo, ainda que não precise ser sozinho, mas deve conhecer a área profundamente.
Astomiro Romais, editor da Ulbra, trouxe esclarecimentos sobre o papel das editoras universitárias: é fundamental. São estas editoras que dão sustentabilidade ao sistema de conhecimento. Na Universidade, onde é – ou deveria ser – gerado o espírito crítico, encontra-se o campo onde a palavra tem seu terreno fértil. Editar, da origem latina, quer dizer dar a luz. Logo, o editor precisa dar oportunidade para que o conhecimento venha à tona. No entanto, os originais nesse meio são inúmeros e precisam ser qualificados, para que sejam publicados. Assim, o editor conta com diversas instâncias de avaliação, como Conselhos e curadores. Depois, a obra vai para o processo de distribuição que, entre as editoras universitárias, funciona através da ABEU (Associação Brasileira das Editoras Universitárias) e que faz com que todo conteúdo seja distribuído igualmente no Brasil inteiro, em um sistema integrado. “No entanto”, diz Astomiro, “estamos aqui com a banca na Feira e é mesmo difícil ver o livro da Surfistinha vender muito mais do que os títulos acadêmicos”. Mas é assim que funciona.
Angela Puccinelli, a mais nova editora do Clube dos Editores do RS, com apenas dois anos de sua Fábrica de Leitura, já editou 11 títulos e não tem um catálogo voltado apenas para uma área. Edita romances, infantis, livros de negócios, poesia, o que entender importante. Atua de forma profissional tradicional, ou seja, sem a participação do autor. Se deu de presente uma editora aos 50 anos e “ama os livros”. Permite o envolvimento dos autores no processo editorial inteiro e tem como pareceristas uma turma de amantes do livro. É a primeira a abrir as caixas quando os livros chegam fresquinhos, da gráfica. Aí é que começam os problemas, diz ela: na distribuição. Mas é assim que funciona.
Luis Fernando Araújo, da Artes e Ofícios, há mais de dez anos no mercado, deu um enfoque diferente à palestra. Engenheiro que é, não poderia deixar de falar em números, e para ele, mesmo os que amam os livros devem entender que editar livros é, antes de tudo, um negócio. E um editor não deve perder de vista seus ganhos, porque se fizer isso, melhor aplicar na poupança que lhe renderá seguros recursos.
Quanto custa um livro? O livro é composto de custos editoriais abordados anteriormente (revisão, paginação, escolha de formatos, papéis, etc). A isto deve-se somar os custos mensais fixos (e variáveis) da empresa, o que dependerá da estrutura de cada editora e exemplificando, a título de ilustração, citou: aluguel, salários, telefone, impostos, luz, água, etc. Tudo isso é multiplicado por um ano e dividido pela produção da editora (número de exemplares por ano). Grosso modo, porque a palestra não era sobre contabilidade, chega-se a um valor de custo fixo por livro. E em cima disso, deve haver uma margem de ganhos que devem fazer o livro render mais (por exemplo) do que uma caderneta de poupança por mês. Temos aí o valor de cada exemplar. No entanto, em geral, 50% desse montante fica na cadeia de distribuição. Médias e pequenas livrarias têm descontos menores, redes e distribuidoras ficam com descontos maiores. E não se deve esquecer o direito autoral, que significa sempre 10% do valor de capa. Ou seja, a explanação foi aquele choque de realidade. Tinha gente que estava se interessando em se tornar editor, mas com essa, até foi desistindo.
Precisamos nos encontrar mais com os editores gaúchos. Sua diversidade e conhecimento enriquecem a comunidade cultural e, de quebra, nos ensinam a fazer contas.

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