Saiu de cartaz, mas vai voltar. No mesmo Cinebancários. Fu Lana incorporou esta semana a mina engajada. Tem saudades de quando apenas era, e não precisava incorporar seus personagens favoritos.
Entrou no cinema dando um carteiraço, o que ela jamais admitiria fazer, mas o povo que iria ficar de fora do espetáculo era duas vezes a lotação da pequena sala de cinema situada no Sindicato dos Bancários da cidade. Era uma turma de dinogrilos, mistura de bicho grilo com dinossauro. Muitos cabelos brancos, mas a onda espiralada da história já deu a sua volta e traz agora uma porção de gente nova, bichinhos grilos cheios de sonhos. A roda gira.
A história da noite, a ser contada, faz parte de um ciclo que relembra os anos de chumbo no Brasil. Duas semanas para a galera pôr em dia suas memórias apagadas. Naquela sessão, única do ciclo, rodaria Cidadão Boilesen. Fu Lana não iria perder aquilo, e aplicou: sou da Coletiva. Tava dentro.
O cara é nome de rua em São Paulo. Os moradores, da também chamada Rua C, não fazem menor ideia de quem seja a criatura, a não ser o que esta lá na plaquinha: administrador de empresas. Na verdade, o dinamarquês chegou a presidente da Ultragaz. Aos 22 anos, já era grandão e circulava na alta sociedade paulista. Quando criança, era meio preguiçoso. Já adulto, logo se adaptou ao estilo brasileiro.
Criou o Centro de Integração Empresa-Escola, foi condecorado pelo Rei Frederik IX, e a empresa que administrava era uma das principais sócias da Petrobras. Mas o que este cidadão fazia em suas horas livres não era da conta de ninguém.
Na época, pós-61, a cubanização da América Latina era uma ameaça aos empresários e o exército se aproveitou e amplificou este medo, solicitando recursos, constituindo a famosa caixinha, para “combater atos de terrorismo”. Alguns empresários eram obrigados a contribuir; outros, se negavam veementemente, como os nominados Antonio Ermírio de Moraes e José Mindlin, enquanto havia aqueles que até pediam para assistir a cenas de tortura e pagavam mais por isso.
A Operação Limpeza tomou o maior impulso com o AI-5, em dezembro de 1968, quando os direitos dos cidadãos brasileiros foram anulados e, se antes havia uma resistência pacífica (passeatas), passou a existir uma resistência armada. A juventude via na luta a única forma possível de participação no processo político. Assim, um militar americano foi morto: Capitão Chandler.
Foi o estopim para a criação da Oban, Operação Bandeirantes, “criada por necessidade militar”, iniciada na Divisão do Exército. Dito o mais cruel e o maior aparato contra os descontentes. Foram selecionados policiais civis e militares para compor a Oban e a filosofia era a de esquadrão: eliminar sumariamente os adversários. Os militares incitavam pânico nos empresários, e mais recursos chegavam da sociedade civil.
A Ultragaz era a maior contribuinte deste projeto-piloto que gerou os Doi-Codi, e que, segundo o documentário, utilizava métodos de máfia. E Boilesen era o tesoureiro da Oban, responsável pelo recolhimento para a caixinha.
Os depoimentos do filme AI-5 40 anos: uma visão cinematográfica dos anos de chumbo são muito claros: a sociedade civil contribuiu e aprovou, na prática, a construção da ditadura, e empresários e militares assistiam lado a lado, juntos, a sessões de tortura.
Cada militante preso e, posteriormente solto, levava o mesmo depoimento aos companheiros, e os soldados confirmavam: Boilesen teria criado um instrumento de aplicar eletrochoques através de um teclado, a chamada Pianola Boilesen. Ele teria várias personalidades. Poderia tanto ser amável e bonachão, como cruel e sádico.
Falava-se em uma lista de pessoas marcadas para morrer. Boilesen era um deles. Recusava-se a manter seguranças pessoais. E andava armado.
Em 15 de abril de 1971, o carro do sr. Boilesen foi fechado em uma rua de São Paulo, e ele, alvejado com tiros de fuzil, chegando a levar 25 tiros no rosto e um tiro final, de misericórdia. Caiu no meio-fio com o rosto na sarjeta.
O sr. Brilhante Ustra nominou os envolvidos no crime. Fu Lana espumava, pois, de dois citados, sabia que um – dito pelo militar que estava morto–, está bem vivo e mora em Pinhal. O outro, na época do ato de justiciamento, encontrava-se preso, portanto, impossibilitado de estar participando do crime. Logo, também mentiras ficam para a posteridade.
No final da noite, muita discussão, mensagens de apoio, parabéns ao diretor presente Pedro Asbeg. “Até hoje, não fomos processados, mas enviamos cópias em dvds para muitos depoentes, e até agora, não recebemos resposta. Esse silêncio incomoda”, disse ele, referindo-se aos militares que deram depoimentos ao filme.
A obra vai voltar a cartaz. Tem de voltar. Para a gente reconstituir o que se pensa que sabe dos tais anos de chumbo. Ainda muito há que ser explicado.

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