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De golo, bicha e baitola

Dia 20, fui para o computador como um autômato e enviei para dezenas de amigos um e-mail: “Fechei O Globo com o coração apanhado …

Dia 20, fui para o computador como um autômato e enviei para dezenas de amigos um e-mail:

“Fechei O Globo com o coração apanhado no contrapé. Foi-se Luiz Celso de Piratininga Figueiredo, o Pira, amigo-irmão de décadas. Pira, entre muitas criações, em 1964, já um irmão, criou o publicitário Mario de Almeida.”

Outro amigo-irmão, Cyro Del Nero, alertou-me que longevos como nós aprendem a conviver com a morte e, citando os gregos, festejou o fim de uma existência fecunda e brilhante como a do Pira: “Ele viveu!”.

Formado pela primeira turma da hoje ESPM e o seu orador, Pira, depois professor, despediu-se da vida como presidente da mesma. De fato, empresário da propaganda e à frente de instituições da classe, ele viveu.

Cyro, indiretamente, lembrou-me a promessa de escrever sobre a pergunta aqui feita:

“Desafio à memória: Qual o ano em que, em Porto Alegre, o ‘gol’ deixou de ser ‘golo’? Respostas para [email protected].” Vale, então, a costumeira saudação entre Léo Christiano, amigo que ganhei em 1965, e eu: Viva!

A resposta dada pelo amigo Gustavo Borja Lopes provocou minha vontade de brincar um pouco sobre o assunto:

“Mario, casado com uma gaúcha, fiquei sabendo que aqueles três pedaços de pau (duas traves e um travessão) aos quais chamamos de ‘baliza’, no Rio Grande do Sul, receberam o nome de ‘goleira’. ‘Goleira’, pra mim, é a camisa 1 em times de futebol feminino…

Por falar em gol, quem marcou um de placa foi o diretor de arte Francesc Petit, ao desenhar a logomarca daquela companhia aérea das barrinhas de cereal. "GOOL" é, penso eu, a logomarca mais onomatopaica da história da publicidade brasileira!

Abração,

Gustavo”.

Em 1957, quando fui a primeira vez para Porto Alegre, e lá fiquei cinco meses, no Hotel Majestic, hoje a Casa de Cultura Mario Quintana, fui surpreendido por vocábulos como golo e carpim (meia soquete); conheci os sanduíches aberto e o Farroupilha (queijo prato com mortadela em pão francês de 50g); e aprendi a pedir informações a desconhecidos chamando-os de “pessoa” ou “vizinho”. As mulheres que adoçavam o tradicional chimarrão degustavam o “mate de comadre”.

Aos vocábulos lusitanos levados para o Sul pelos imigrantes açorianos, os gaúchos introduziram o “gordo” e o “magro”, resultado da cultura bovina dos pampas também uruguaios e argentinos. Na primeira peça que dirigi lá, do Paulo Hecker Filho, O Provocador, um namorado dirigia-se à namorada, num banco de praça pública, dizendo:

– Gorda!

Perguntei ao autor como expressar a fala e ele explicou que, ali, era uma expressão de amor e tesão. No caso, a cena, com o ator apertando os braços da atriz Amélia Bittencourt, foi realismo puro, pois ela, jovem, carnuda e gostosa, era a própria mulher do magro Marcelo.

Mas inusitado mesmo era o genérico privada (sanitário) ou o específico vaso sanitário ser chamado de patente pelo fato de trazer a inscrição “marca patente”. Eu, heim, vizinho?!

Acostumei-me, encantado, a tomar o café da manhã com chimia, ou seja, a geléia “traduzida” direta do alemão (schmier) para o gauchês.

Na época, todo jogo importante de futebol local continuava no Largo dos Medeiros, mais popular como Largo da Merda, onde a discussão sobre o jogo rendia horas.

Vocábulo lusitano raro na futura Portinho era “bicha”, no sentido de fila e sem nenhuma conotação gay.

Já no Ceará, o gay é chamado de baitola e a origem do vocábulo é curiosa: na construção das primeiras estradas de ferro naquela região, havia um engenheiro ou capataz inglês gay, muito exigente quanto à bitola dos trilhos. Como pronunciava "baitola", ganhou o apelido e a imortalidade nordestina.

Minha filha Rachel acaba de voltar de férias da Europa e visitou as ruínas de Herculano e Pompéia que conservam os famosos grafites de pênis com asas, o pênis voador.

Como fui criado na cultura do “prevenir acidentes é dever de todos”, sempre cuido que esses objetos voadores identificados não aterrissem naquelas regiões onde mamãe passou talquinho.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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