Numa reunião de financistas, políticos, acadêmicos e a elite intelectual do país, uma autoridade financeira se impôs ao burburinho geral e disse:
– Só há uma saída… Precisamos tomar 60 bilhões de dólares emprestados do FMI.
Súbito ouviu-se um coaxar gutural de um sapo. O sapo pulou em cima da mesa, em meio a documentos, ensaios e planos econômicos. Dois fenômenos não naturais foram percebidos imediatamente: o sapo era barbudo, e falava. Um dos acadêmicos, o mais brilhante do grupo, olhou com gravidade para todos, como quem pede silêncio, e dirigiu a palavra ao sapo:
– Quem é você e o que pretende?
– Pretendo que vocês me engulam, vão ter que me engolir.
– Está bem, mas por que?
– Nunca na história deste país houve um governo capaz de agradar a ricos e pobres, e a classe que fica no meio e que por isso tem raiva de pobre e de rico. – disse o sapo com sua voz rouca.
– Sim, sim, a classe média – assentiu o intelectual. – Mas, quais são os seus planos?
– Meus planos? Não tenho planos, tenho metáforas, a exemplo do jardineiro do filme “Muito além do jardim”.
– Que sapo inteligente – comentou outro acadêmico.
– Vou ser presidente deste país – disse o sapo. O grupo se entreolhou, algumas pessoas ficaram tensas, outras reprimiram o riso. – Vou convidar os melhores cérebros do país para me ajudar. Pessoas que vocês não gostam porque são de “direita” e porque são de “esquerda”. Não gosto de gente que vive em cima do muro – completou o sapo.
– Mas nós lutamos contra a ditadura…
– Eu também lutei, naquele tempo eu não era sapo.
– O que você era?
– No fundo, era o que sou até hoje, a mosca que caiu na sua sopa, Fernando.
– O negócio é seguinte, sapo, a gente te ajuda a ser presidente, mas com a condição de que, se der zebra e você vencer as eleições, seu governo deve por em marcha este Plano Econômico.
O sapo examinou o plano com seus olhos argutos e depois disse:
– Tá bom, mas vou fazer mais.
– O quê, por exemplo? – perguntou o tal de Fernando.
– Vou emprestar 60 bilhões de dólares ao FMI.
Fernando pediu para ficar a sós com o sapo e depois disse:
– Eu acredito no que você está dizendo, mas, me diga, sapo, o que você tem que eu não tenho?
– Fome – respondeu o sapo dando um salto e desaparecendo no elegante jardim da casa.

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