Durante a semana que passou, bon vivants dos dois lados do Atlântico devem ter perdido o apetite, com a notícia que sua bíblia, a revista Gourmet, deixará de circular em novembro. Ao que tudo indica, uma vítima tardia da crise financeira, que mexeu com os hábitos dos afluentes e dos muito ricos.
Ficam órfãos um milhão e meio de leitores devotos da haute cuisine e, sem emprego, 200 editorialistas, fotógrafos e produtores gráficos, além de uma brigada de chefs, patisseurs e enólogos da cozinha experimental que funcionava dentro da redação da revista.
O nome mais ilustre entre os desempregados é a editora-chefe Ruth Reichl, ex-colunista de restaurantes do The New York Times, que era temida por suas críticas ferinas à culinária pretensiosa de alguns estrelados chefs da cidade. Ruth Reichl escreveu livros de receitas e algumas deliciosas narrativas autobiográficas, onde conta como conheceu os prazeres da boa mesa. Ela também revolucionou os hábitos alimentares dos norte-americanos, ao motivá-los a trocar os hamburgers pela “slow food”.
A Gourmet era para a culinária o que a Vogue é para a moda. Começou a circular em 1941, se transformando em referência de refinamento e de bom gosto em comer, beber e viajar. Incontáveis publicações de gastronomia foram inspiradas em sua impecável produção gráfica e em seu culto pela diversidade culinária. Ao mesmo tempo em que revelava segredos da haute cuisine dos templos parisenses, estimulava os leitores a desbravarem a cultura culinária de lugares exóticos e distantes.
Mas, por mais lamentável que seja a morte de uma publicação que fez história, é possível anotar que os altos executivos da Condé Nast desconsideraram um ensinamento clássico de marketing. Aquele que reza que se deve manter um olho atento às mudanças nos humores e no comportamento do mercado. No caso da Gourmet, os grandes anunciantes deviam estar atentos, pois perceberam que o consumidor de alto poder aquisitivo estava se retraindo diante das más notícias sobre a crise financeira. Em um ano, a Gourmet sofreu uma queda de 43% nas receitas de publicidade, quando importantes e tradicionais anunciantes desertaram para a segunda revista de culinária da editora: Bon Appétit’s, que aumentou seu faturamento e circulação, chegando a 1 milhão e 350 mil exemplares, superando os 980.000 da Gourmet.
Quase que do dia para a noite, os luxuosos anúncios de caviar Beluga e de Ferraris de US$ 500 mil foram substituídos por produtos de maior rotatividade, dirigidos à classe média afluente. A linha editorial das duas revistas durante os meses da crise financeira mundial mostra como os editores reagiram: em pleno outubro de 2008, a Gourmet publicou uma divertida e provocante matéria assinada por Ruth Reichl, desafiando os críticos de gastronomia de New York a indicarem os restaurantes da cidade onde os leitores poderiam gastar mil dólares em um jantar para dois. Enquanto isso, a Bon Appétit’s dedicava mais de dez páginas com a lista dos endereços onde são servidos os 100 melhores hot dogs dos Estados Unidos.
Um editor da Food Network Magazine disse que, graças às publicações influentes como Gourmet, a gastronomia se transformou em um novo hábito social e o ato de cozinhar passou a ser uma moeda emocional e de valorização da vida moderna. A chef Alice Waters, que reinventou a cozinha californiana, autora de livros e de um prestigiado programa de TV, afirmou que a revista desvendou os mistérios da gastronomia e indicou às pessoas onde comer e o que comer. Mas lembra que a alta gastronomia não desapareceu e, assim que as nuvens negras se dissiparem, voltará a ser um filão no mercado.
Até o momento não se conhecem os planos futuros de Ruth Reichl, mas os leitores de “Alho e Safiras” e “Conforte-me com Maçãs” esperam que use seu talento para escrever novas estórias sobre comida e viagens. Ainda abalada, ao deixar a reluzente cozinha da Gourmet, ela teria comentado: “Matar Gourmet faz sentido para os homens de negócios, mas a geração que elegeu a gastronomia como cultura, sofreu um golpe no estômago”.
Também não se sabe o destino do acervo editorial da Gourmet, as dezenas de milhares de receitas e as listas dos melhores restaurantes e iguarias do planeta. Fala-se que respeitáveis fundações culturais disputam o privilégio de sediar o acervo. Será um sinal dos tempos assistirmos gastrônomos ansiosos fazendo filas diante da biblioteca pública de New York.

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