O homem tinha ares mediterrâneos, vestindo roupas de verão, embora lá fora, nos boulevares, já soprassem ventos prenunciando a chegada do outono. Sentava-se a uma mesa no terraço do restaurante e lá ficava por uma hora ou mais, sorvendo sem pressa um eau-de-vie. Mas não demonstrava ansiedade nem consultava o relógio, como fazemos quando aguardamos alguém atrasado para um encontro.
Passadas algumas semanas, os garções já conheciam os hábitos do personagem. Ele aparecia às terças e quintas-feiras, por volta das dez horas da manhã e acomodava-se no terraço, cada vez em uma mesa diferente. Pedia sua bebida e permanecia em silêncio e imóvel, sem olhar para as pessoas que passavam na rua, diante das janelas envidraçadas, ou para os que entravam pela porta de ferro trabalhado. Perto do meio-dia, quando começavam a chegar os primeiros clientes para o almoço, deixava o dinheiro na mesa e saía sem olhar para trás.
O veterano restaurante, que não aparecia em nenhum guia gastronômico, ainda conservava a discreta elegância dos velhos tempos. Sua reputação se devia aos pratos à moda da Normandia, como as trutas frescas com ervas e o linguado com aspargos e beurre blanc. Era frequentado por moradores do “quartier” e casais de meia-idade em busca da boa comida regional. No entanto, para desalento do maitre e dos garções, o visitante do terraço nunca abria o cardápio de capa vermelha, colocado sobre a mesa, nem arriscava um olhar ocasional para o “menu du jour”, instalado na porta de entrada.
Pelo quê – ou por quem – esperava o homem no terraço?
***
Quando chegou o frio e os clientes escassearam, o visitante reduziu suas aparições, mas cumpria a mesma rotina, já conhecida pela brigada, que o servia sem mesmo esperar pelo pedido do eau-de-vie. Em uma certa manhã, o maitre mandou uma bela fatia de pâté de campagne à mesa do visitante. O garção informou que acabara de chegar da província e era uma gentileza da casa. O homem agradeceu, contemplando com curiosidade a iguaria, acompanhada de fatias crocantes de baguettes, regadas com óleo virgem da Provença.
Um minuto depois, levantou-se, deixou o dinheiro na mesa, e saiu como sempre, sem olhar para trás. Os garções se apressaram em recolher a generosa gorgeta, mas desolados, viram que nem o pâté nem o pão haviam sido tocados. Inconformado e curioso, Gaston, um dos garções, correu até a porta, mas o homem mediterrâneo já não estava mais à vista. Vislumbrou apenas um sedã preto, de modelo antigo, se afastando em direção ao Canal Saint Martin.
Com o passar do tempo e de forma quase imperceptível, o personagem se incorporava na vida do restaurante. Nas manhãs das terças e quintas-feiras, o maitre colocava sobre o balcão do bar uma garrafa de seu melhor eau-de-vie e permanecia à espera do visitante. E quando ele se instalava no terraço, os garções, ao tempo em que montavam as mesas, mantinham um olho na porta de entrada. Em silenciosa cumplicidade, ansiavam pela chegada da pessoa que o homem do terraço aguardava com inesgotável paciência. Sua aparição poderia explicar sua vigília e talvez revelasse um caso curioso para contar aos amigos.
Às vezes, uma jovem desacompanhada entrava pela porta de ferro e seus passos eram acompanhados de longe, mas com atenção. Ela sentava-se a uma mesa e pedia alguma coisa. Mas o personagem no terraço sequer voltava a cabeça, bebendo imperturbável a eau-de-vie.
Em uma determinada manhã, perto do horário de almoço, entrou na casa um homem vestindo um pesado sobretudo. Carregava uma maleta de couro preto e fingiu ler o “menu du jour”, enquanto examinava as pessoas no restaurante. Tinha olheiras fundas e parecia ter ascendência da Europa Oriental. Sem tirar o chapéu nem o sobretudo, se dirigiu em direção ao balcão do bar, onde depositou a maleta no chão, ao seu lado. O maitre, em um impulso, serviu-o de uma dose do eau-de-vie da garrafa sobre o balcão.
O visitante, sem surpresa, tomou a bebida em dois goles rápidos. Virou-se e passeou os olhos pelo terraço, onde o homem mediterrâneo continuava impassível. Mais tarde, um dos garções juraria que ele acompanhara com os olhos a entrada do estranho.
Passaram-se alguns longos minutos, marcados pelo grande relógio do salão. Então, o recém chegado colocou a maleta sobre o balcão e sussurrou algumas palavras ao ouvido do maitre. E seguiu em direção à saida, sem olhar para o terraço.
Quando a porta se fechou sobre o homem de sobretudo, os garções viram que a maleta havia desaparecido de cima do balcão. E também notaram que o maitre meneava levemente a cabeça, com o ar satisfeito de quem acabara de resolver mais um pequeno enigma dos boulevares.

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