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Evidências de Primavera

Enviando o texto da semana, uma reflexão sobre a inspiração, que Borges chamava de "evidências de primavera". Ele passava longos minutos, às vezes mais …

Enviando o texto da semana, uma reflexão sobre a

inspiração, que Borges chamava de "evidências de primavera".

Ele passava longos minutos, às vezes mais de uma hora, diante de sua janela que se abria para a Avellaneda. Cego, não podia ver os plátanos que perdiam as folhas, tocadas pelo vento austral, mas depois, junto a lareira, ditava palavras que comoveriam leitores em todo o mundo.

Quando Jorge Luis Borges sugeriu que sentia evidências de primavera ao seu redor – não se referia apenas aos restos de inverno do lado de fora da janela, mas daquela inspiração que, furtivamente, espreita o escritor, no momento em ele se prepara para escrever uma novela ou um conto. Mesmo que ainda não exista um título ou personagens, é como um sopro divino, que inquieta o escritor, despertando seus fantasmas ocultos.

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O romancista Carlos Fuentes descobriu Borges quando seu pai servia como diplomata em Buenos Aires, mas decidiu não encontrar o escritor pessoalmente, apesar de reconhecer que seus livros haviam transformado sua vida. Dizia que receava que o convívio com o homem auto-apagado o levaria a desmerecer a obra luminosa do escritor cego. Para Fuentes, o escritor argentino era uma charada para os biógrafos – sua vida exterior era aborrecida e desprovida do charme que adornava escritores de ação ou de aventuras, como Rimbaud ou Ernest Hemingway. E se dizia frustrado por não saber decifrar os misteriosos meandros da alma de Borges, que enxergava evidências de primavera do lado de fora de sua janela.

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Edward Hopper, o intrigante pintor norte-americano do período entre-guerras, estudou arte por longos anos e, como os jovens artistas de sua geração, viajou para a França em busca de inspiração. Mas quando lhe perguntaram com quem ele havia se encontrado, respondeu:

“ – Ninguém. Ouvi falar de Gertrude Stein e Picasso, mas preferi ir aos cafés à noite, sentar e observar as pessoas”.

E, para espanto de muitos, declarou que a Paris dos impressionistas não lhe havia causado nenhum impacto em especial.

No entanto, quando viajou a Amsterdam, ficou hipnotizado pela “A Ronda Noturna” de Rembrandt, passando dias inteiros diante da grande pintura. Em novas viagens à Europa em 1909 e 1910, voltou ao Rijkmuseum para revisitar Rembrandt.

Mais de dez anos se passariam antes que Edward Hooper pintasse o que seria sua primeira obra-prima, “A Casa perto da Linha Férrea”, uma paisagem que mostra simplesmente um casarão e uma linha de trem, a evocação perfeita da solidão dos viajantes.

O mesmo tema voltaria mais tarde no pungente “Os Falcões da Noite”, um flagrante de um bar do Village, onde quatro notívagos não se falam nem se olham. Não por coincidência, ele iniciou a pintar o quadro logo após o ataque a Pearl Harbour. Em algum momento, durante suas viagens solitárias, Edward Hooper deve ter pressentido as evidências de primavera que nos sugere Borges. Que podem ter acontecido nos cafés parisienses, diante da “A Ronda Noturna” ou com o impacto da tragédia de 7 de dezembro de 1941.

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William Sydney Porter nunca escreveu uma novela ou um romance. Mas sob o pseudônimo de O’Henry produziu 300 fascinantes contos, que estão entre o melhor da literatura americana do século XX. Ele tentou e fracassou em várias profissões – foi balconista na loja do tio, cow-boy, professor primário, guarda-livros e repórter free-lancer. Viajou sem destino por metade dos Estados Unidos e América Central. Quando a esposa ficou gravemente doente, O’Henry voltou para casa e logo após a morte da esposa, foi preso por 3 anos, acusado de fraude em um banco do Texas.

Ele começou a escrever quando ainda estava na cadeia. Tinha 42 anos e seus primeiros contos o fizeram famoso quase que da noite para o dia. São histórias curtas, marcadas por ironias, coincidências estranhas e personagens que permanecem na memória do leitor. As paisagens são quase sempre de outono ou de inverno, mas em um determinado momento, O’Henry deve ter vislumbrado, do lado de fora das grades de sua cela, as evidências de primavera.

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Deve estar chegando às livrarias dos Estados Unidos uma nova versão de “A Festa Móvel”, a mítica novela de Ernest Hemingway, que foi editada em 1964 por Mary, sua quarta e última esposa. Agora, é a vez do neto Seán fazer o papel de revisor do passado do avô. A editora Scribner diz que essa “edição restaurada” procura recuperar a memória de Pauline Pfeiffer, lançando uma luz favorável sobre a personagem, que teria sido retratada injustamente na edição original.

Quando editou “A Festa Móvel”, Mary Hemingway reuniu trechos de um manuscrito inacabado que o escritor deixou para trás. Ela criou um último capítulo, onde elogia a primeira esposa, Hadley Richardson, trocada por Hemingway por sua melhor amiga, Pauline Pfeiffer. Neste folhetim – que Hemingway não escreveu, mas que viveu com intensidade – Pauline é retratada por Mary como uma predadora, que teria trazido “bad luck” para o escritor, que enviou uma carta ao editor, pedindo que o livro não fosse publicado tal como estava, pois lhe faltava um final.

Três anos mais tarde, Mary escreveu o final. E agora, 45 anos depois, Seán Hemingway apresenta sua “A Moveable Feast”, com novos capítulos intitulados “Esboços de Paris”, baseados em textos que deveriam ter sido incluidos na edição original. Tudo parece indicar que as evidências de primavera, que tantas vezes bafejaram o avô, não sopraram para o neto.

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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