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Com 7 anos de idade eu morava com meus avós em uma casa de alvenaria com razoável conforto e, numa linda manhã de Sol, ao abrir as janelas venezianas do meu quarto, em par, fiquei paralisado com um cortejo fúnebre que desfilava a poucos metros de distância de onde eu estava. Para um menino com imaginação fértil e absoluta ignorância sobre os mistérios da morte, a cena não poderia ser mais impressionante. O carro precursor era um daqueles modelos europeus, um imenso carro negro reluzente; apliques dourados emolduravam os vidros; grandes faróis externos em cima dos paralamas, um de cada lado do radiador alto, o que, por si só, desenhava uma carranca medonha. E o párachoque niquelado, arqueado para cima nas extremidades, me deu a impressão de que o carro estava rindo de alguma coisa, um riso mau me pareceu. Logo atrás da cabine do motorista havia 6 colunas prateadas, 3 em cada lado da carga mortuária, e no topo de cada uma das colunas havia uma cabeça de anjo, com o olhar vazio. Do teto preto descia uma cascata de um cortinado roxo com franjas douradas e, ali no centro de tudo, o esquife.
Do meu ponto de vista, primeiro surgiu a cabine. Imobilizado e sem olhar para os lados, vi passar à frente as primeiras colunas, e logo surgiu o caixão preto, lentamente. A memória que tenho é que meus olhos eram uma câmera com um perfeito enquadramento da cena. Contudo, no exato momento em que o caixão saiu do cenário, surgiu ao fundo a figura de uma linda garota que pulava corda no outro lado da rua. Era a Meire, uma menina com os seus doze anos (para mim era uma mulher), que morava no prédio em frente. A Meire era a fantasia platônica de todos os garotos da rua. A cada pulinho que dava seu vestido subia um pouco e, pela primeira vez na minha vida, vi as pernas desnudas de uma garota vestida. (Na praia não vale, pois o impacto não seria o mesmo).
A cuidadosa descrição que fiz do carro fúnebre foi para demonstrar o quanto a minha memória registrou os detalhes mórbidos daquela cultura luzitana de exaltação aos funerais. Mas foi um registro gráfico, de dimensão estética. A intensidade emocionante surgiu do olhar, não da filmagem. Quando vi a menina pulando corda, com seu vestido levitante, o meu coração de menino perdeu a inocência original, e disparou. A vida se impôs à morte. Foi o primeiro tesão, quase revolucionário. O tesão arrebatador que esculachou a breguice mortuária e invadiu todos os redutos do corpo e da minha alma infantil. A morte passou em frente à minha janela e piscou para mim, é verdade. Mas, segundos depois, a vida me abraçou e me relevou a sua essência mais emocionante. Jung estava certo.

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