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Um Homem Antigo

Retornei mais uma vez à tenda do Fanor, ainda tentando saber mais sobre o intrigante caminhante da lua nova. Tentei parecer interessado nos cogumelos, …

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Retornei mais uma vez à tenda do Fanor, ainda tentando saber mais sobre o intrigante caminhante da lua nova. Tentei parecer interessado nos cogumelos, potes de mel e nos toucinhos defumados, mas não deixei de notar o olhar, entre divertido e irônico, do velho. Minutos mais tarde, ele despachou seus clientes e me convidou para o pequeno alpendre, nos fundos da tenda. Serviu o mate, que estava temperado com ervas aromáticas, mas não disse que ervas eram.

A cerração se dissipava sob o sol fraco da manhã, mostrando ao longe,    o vale do Rio Paranhana. A conversa demorou, pois enquanto eu evitava perguntar pelo caminhante, Fanor fazia de conta que ignorava a razão de minha visita. De vez em quando, eu arriscava olhar para o fundo do vale, onde ficava a trilha. Mas a mata de pinheiros estava quieta e não   se via ninguém.

***

O velho Fanor é aquele tipo de pessoa que não se encontra todos os dias. Tem a barba grisalha, aparenta uns oitenta anos, mas conserva o olhar aceso e inquieto da adolescência. Está sempre atento às pessoas e às coisas, parece que não se cansa de observar e aprender. Com certeza, sabe muito mais do que demonstra, é quieto e inescrutável como um abade. Observando seus gestos medidos e a fala quase solene, não consigo evitar a impressão que é um homem deslocado de seu tempo.   Se fosse mais falante, poderia ser um Don Segundo Sombra, vagando pelos campos, tentando manter vivas lendas e estórias de antepassados.

Pergunto, casualmente, sobre o que fazia na vida antes de abrir a tenda.   A resposta demora, como se lhe custasse falar de si. Ergue os olhos para o grande pinheiro ao lado e conta que, antes de vender mel e cogumelos, fazia parte dos “abraçadores de árvores”, pessoas que se dedicam a proteger as araucárias da região.

“- Antes era fácil – os lenhadores usavam o machado e demoravam quase um dia inteiro para derrubar um pinheiro centenário. Agora ficou difícil – meus amigos, os abraçadores de árvores estão ficando cansados. E os pinheiros, estão acabando…”.

***

Faz uma pausa e demonstra estar pouco à vontade. Neste momento, tiro do bolso e lhe entrego meu “El Guia del Caminante”. Ele examina a capa do livrinho e o folheia, página por página, com o rosto sombrio. Aguardo que diga alguma coisa, mas me devolve o livro sem uma palavra. Levanta-se e olha em direção ao vale, agora iluminado pelo sol de outono e retoma a conversa.

“- Eu era um jovem atrevido, achava que podia tudo na vida. Domava, tropeava gado, mas queria mais, meu sonho era sair a caminhar pelo mundo”.

Com um esgar, aponta o joelho direito:

“- Mas um dia, o coice de uma potranca mudou tudo…”.

***

Meses depois, passei pela tenda mais uma vez. Estava fechada e não vi ninguém no alpendre. Eu havia tentado, mas desisti de entender porque o velho Fanor se mantém à distância do caminhante. E porque se contenta simplesmente em saudá-lo, de longe, quando ele passa pelo vale. Fanor jura que nunca se encontrou com o caminhante, no entanto, o conhece como a um irmão.

Um parece ser o reflexo do outro. Mas ainda não decifrei quem é espelho e quem é real.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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