Chove na cidade.
Há três dias que chove na cidade.
Uma cidade solar que, debaixo da chuva contínua, perde a identidade urbana e sonega a face do humano.
Aquela chuva, achava, mascarava o real, o cotidiano se transformava numa farsa mal representada.
Sabia, porém, que a farsa era tão real quanto o solar de quase sempre.
Chuva, cinza, tudo que nebuloso eram elementos de angústia.
Lembrou-se do tempo, tempos de chumbo, a política lhe exilara em terras não escolhidas.
Tempos compulsórios nos quais jamais lhe aconteceria algo.
Não existe vida sem raízes, sentira-se condenado, mesmo sem data para a execução.
Haviam sepultado o seu passado.
Seu presente era nada e nem projetava futuro algum.
Agora, de volta às terras de sol, foi surpreendido por chuvas e pelas antigas lembranças.
Sacudiu a cabeça, enfiou as mãos nos bolsos das calças e, cabeça ao vento, foi passear na chuva.
Pisou firme, sabia que retomara os passos do futuro e o sol voltaria.
Sorriu.
A chuva estava lavando parte do seu passado.

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