A geração que foi educada pela geração dos meus pais foi moldada por certezas do que era certo ou errado, embora, muitas vezes, ela dizia uma coisa e fazia outra. O curioso é que certo e errado não eram valores pessoais. Eles apenas reproduziam critérios de direitos e obrigações generalizados, ou seja, não mate, não roube, não minta, estude e encontre uma profissão. Muitos dos meus amigos tratavam o pai de senhor, assim estes pais mantinham uma blindagem que lhes assegurava a autoridade, necessária apenas para manter a autoridade. Mais ou menos como faz o Sarney e sua troupe, e outras figurinhas carimbadas como chefes, patrões, síndicos e porteiros, nem todos, nem todos.
Como Gabriel García Marquez, fui criado por meus avós. Este fato foi de extrema importância na minha vida. A cada pergunta sobre vida, morte, ou sexo, antes de uma resposta definitiva, o casal de idosos, com sua vasta experiência, sorria, e, ao sorrir, desassombrava o grão de angústia embutido na pergunta. Às vezes, minha avó (talvez para ganhar tempo) mandava que eu fosse brincar… Depois me responderia. Como a avozinha não dava muita importância para a pergunta, eu ia brincar, certo de que as minhas dúvidas não eram tão graves. Só muitos anos mais tarde, depois que eles se foram, eu, diante da vida, da morte e do sexo, me dei conta que os avós (para minha sanidade mental) revestiram estes eventos com as substâncias de naturalidade. Viver é natural, o sexo é natural, morrer é natural. Entendi esta lição pelo filtro das emoções com sete anos de idade. A resposta era menos importante que a atitude deles diante das minhas indagações e dos meus temores.
Sexo que é bom só fui descobrir na companhia das nossas putas tristes, na Marly, na Mônica e na Mãezinha, juro, tinha um putedo com o nome de Mãezinha. (O corretor ortográfico se recusa a tirar marca vermelha da palavra puta e sugeriu que eu utilizasse “picota” para substituí-la.) Que seja, as picotas foram fundamentais para a nossa geração, cujas namoradas, além de comedoras compulsivas de hóstias, também eram devotas do selo de garantia. Modernamente, garotas de programa têm a mesma aparência, atitudes e vocabulário das filhas de boa família. Certa vez, ao perguntarem para Fidel Castro se era verdade que as cubanas precisavam se prostituir para bancar a universidade, ele respondeu irritado que isso era mais uma maledicência do polvo imperialista americano. “Nuestras estudiantes no necesitan se prostituir, son nuestras prostitutas que tienen nivel universitário” – declarou convicto.
Quando meu filho começou a fazer perguntas indigestas, tentei manter a mesma atitude dos avós, mas não consegui ter a mesma eficiência. Eu não era avô, era pai dele. Mas aos poucos percebi que, para ele, o que eu fazia era mais importante do que dizia, e que, no futuro, ele não seria a repetição do meu passado e do meu presente. Por exemplo, ele não precisou das picotas para descobrir o sexo, descobriu com a namoradinha dele. Claro que, com o passar do tempo, as perguntas ficavam cada vez mais complexas. Ele teria de viver e experimentar, errar e aprender. Acho que, neste momento, tive a grandeza de engolir a onipresença paterna e responder simplesmente: não sei, meu filho, não sei. E sorrir, como sorriam os meus avós.

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