Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate
Deixai toda esperança, ó vós que entrais.
(Dante Alighieri)
Certa vez, antes de ir a Paris, dei uma retrospectiva para descobrir coisas do meu interesse e ainda não conhecidas.
Por coincidência, a morte era o ponto comum de duas lacunas: o Cemitério Père Lachaise e as catacumbas da cidade.
O Cemitério Père Lachaise, o “São João Batista” da França, criado 15 anos depois da Revolução Francesa, teve por objetivo precípuo acabar com a distinção entre os defuntos abonados e os desafortunados. Enquanto os primeiros ocupavam espaços atrás das igrejas, a maioria do povão ia para a vala comum, sem identificação e sem mais nada.
O Père Lachaise, democrático cemitério laico aberto para mortos e vivos, acabou virando um museu a céu aberto, um importante capítulo da história da França.
Graças à notoriedade dos que se tornaram eternos na memória dos mais diversos ofícios, o cemitério recebe dois milhões de visitantes/ano, ou seja, 1/3 dos visitantes do Museu Britânico, um dos mais importantes do mundo.
Isso se deve à fama dos “habitantes” como Colette, Édit Piaf, Gertrude Stein, Maria Callas, Simone Signoret, e Yves Montand, Balzac, Champolion (Pedra Roseta), Chopin, La Fontaine, Modigliani e Musset, motivo pelo qual preferi visitar sozinho aquele santuário das artes e das ciências.
Num domingo que se revezava entre garoa, chuva fina e estiagem, às nove horas, horário da abertura, recebi um mapa dos túmulos das celebridades e comecei a caminhada.
O estar só me dava direito a um itinerário pessoal e aos solilóquios de minha memória. Defronte ao túmulo do poeta Paul Eluard, a palavra liberdade explodiu em versos:
“Liberté
Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
j’écris ton nom…)”.
Junto com o poema, ocorreu-me a fofoca: Salvador Dalí roubou a esposa do poeta – Gala –, que veio a se tornar a eterna musa do surrealista catalão. Impossível “encontrar” o Barão Hausmann sem lembrar que ele, em 1852, iniciou o planejamento urbano e, por 17 anos, desenhou a “Paris moderna” com suas grandes avenidas. Impossível não lembrar que o Boulevard Hausmann foi, tempos depois, um dos endereços de Proust, agora juntos no Père Lachaise.
Naquele boulevard, o Hotel Ambassador Concorde foi meu primeiro abrigo parisiense e, a cerca de uns 300 metros, no 10 do Boulevard Montmartre, fica o Hotel Mercure Paris Ronceray Opéra, onde também me hospedei, uns 180 anos depois do compositor Rossini morar num apartamento que hoje é parte do hotel.
O italiano Rossini (O Barbeiro de Sevilha) e o francês Bizet (Carmen) são representantes de peso da ópera no Lachaise.
Meu amor pelo teatro e os anos de atividades em todos os seus segmentos levaram-me a Molière, cujo O Tartufo foi o último texto que cheguei a ensaiar no Teatro de Equipe.
Eu, que já conhecia a história do Positivismo e a casa de Auguste Comte, filósofo da doutrina, conheci o seu túmulo. Lembrei-me do “Ordem e Progresso” de nossa bandeira, extraído do lema proposto por Comte e cuja versão final foi “o amor por princípio e a ordem como meio; o progresso por fim”.
Na bandeira, o amor ficou de fora. Essa omissão faz parte da criminosa divisão de renda das nossas classes sociais e jamais tirou o sono dos injustos.
Isadora Duncan, a fundadora da dança moderna e lúcida transgressora dos costumes de seus tempos, em 1916 apresentou-se nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo e não é a única celebridade norte-americana daquele cemitério.
Sua conterrânea, a poetisa Gertrude Stein (uma rosa é uma rosa é uma rosa), a que batizou nos anos de 1920 os escritores de seu país radicados em Paris de “Geração Perdida”, também está lá. Nem Isadora é a única bissexual e nem Gertrude é a única lésbica notória, pois a atriz Sara Bernhardt também teve amantes mulheres.
Estava eu naquele indeciso clima dominical, defronte ao túmulo daquela que foi uma das mais famosas atrizes da história ocidental, quando ouvi choros convulsivos vindos de algum lugar muito próximo.
Cemitério vazio, dirigi-me com cuidado, evitando criar constrangimento, para onde imaginava vir aquele triste desabafo. Acertei e, mapa na mão, vi que o negro de uns 40 anos, sozinho, chorava à frente da sepultura do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804/1869), o pedagogo que, com o pseudônimo de Allan Kardec, codificou o Espiritismo, a doutrina religiosa que ganhou o mundo.
Visitante menos avisado da Abadia de Westminster, em Londres, pode pensar que para lá foi o corpo do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900). Acontece que, além de muitos reis do Reino Unido, grandes vultos de sua história estão, de fato, enterrados na Abadia, como Newton e Darwin, mas outros grandes nomes foram homenageados com placas na Abadia pelo fato da cidadania em terras do Reino Unido.
Oscar Wilde, escritor, poeta e dramaturgo, autor do celebrado e seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, apesar de haver casado e ser pai de dois filhos, tornou-se um homossexual assumido. Esse homossexualismo acabou envolvendo-o num processo judicial, que culminou em dois anos na cadeia. Certamente, não foi o homossexualismo que o levou à prisão, pois seria muita hipocrisia social, mas as circunstâncias e o jogo de poder que enfrentou.
Livre em 1897, foi para Paris, onde morreu miserável, mas a notoriedade abriu- lhe um espaço no Lachaise. Seu túmulo, decorado com um anjo de grande pênis, que, mesmo não sendo o pênis voador dos grafites de Pompeia, vive “voando” para as mãos dos adoradores de um bom membro.
Confessei na introdução do Antonio’s: “Escrevi este livro na primeira pessoa porque viagem e bar são aventuras absolutamente pessoais”.
Hoje acrescento: cemitério também.
Inté a crônica sobre as catacumbas de Paris.

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