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Uma Noite em Manhattan

Com toda a certeza, os executivos da NW Ayer haviam sido instruídos para tratar bem os publicitários da América Latina que estavam chegando a …

Com toda a certeza, os executivos da NW Ayer haviam sido instruídos para tratar bem os publicitários da América Latina que estavam chegando a New York. A quase centenária agência estava formando uma equipe multinacional para atender a um novo cliente, que acenava com verbas de milhões de dólares em uma dezena de países ao redor do mundo. E um destes países era o Brasil.

Às 8 horas daquela segunda-feira cinzenta e gelada, uns vinte e cinco publicitários de meio mundo se reuniram pela primeira vez, na agência, nas alturas do desfiladeiro de aço e vidro da Sexta Avenida. Um jovem sorridente senta-se ao lado e aperta minha mão com força:

“- Meu nome é Ronald Ricca, sou um dos executivos designados para atender à nova conta na área das Américas”.

Nos próximos meses, Ron seria meu anjo da guarda nas trilhas da selvagem Madison Avenue.

***

A reunião terminou bem depois das cinco da tarde, com curtas pausas para sanduíches de pastrami e café aguado. Bem que o jovem Ron tentou conseguir um café decente para os latino-americanos, mas a cantina do prédio não oferecia tais luxos. Enquanto preparávamos a papelada do dia seguinte, meu anjo da guarda perguntou se eu gostava de jazz. Boa música, depois de um dia inteiro de reuniões, era o tudo que eu gostaria de ouvir.

Claro que não existem táxis vazios às seis da tarde em Midtown e o jeito foi caminhar até a rua 55, do lado leste da cidade, onde fica o “Michael’s Pub”. Percebi então o que Ronald Ricca havia preparado para minha primeira noite na cidade – uma sessão de jazz com o diretor e ator Woody Allen, tocando sua clarineta.

“- Melhor, impossível”, pensei.

Logo na chegada, notei que o lugar estava estranhamente vazio e me indaguei se não estávamos no endereço errado. Depois de alguns drinques, Ron olhou para o relógio e foi falar com alguém no balcão. Voltou sem esconder a desilusão – Woody Allen estava filmando fora da cidade e não tocaria naquela semana.

Desconsolado, Ron sugeriu uma ida até o Village, para tentar um pocket show. Alegando cansaço, agradeci e me despedi, pois sabia que ele ainda precisava pegar um trem para chegar em casa.

***

O hotel que a NW Ayer havia reservado não estava entre aqueles onde a agência costumava hospedar os executivos visitantes. Mas, como todos os grandes hotéis estavam lotados, me coube um dos mais refinados e tradicionais endereços de Manhattan: o The Carlyle.

É tão fino que nem usa a palavra hotel na fachada. Está instalado perto do Central Park, no Upper East Side, em uma belíssima torre art deco de 1930, reformada de cima a baixo por muitos milhões de dólares. A suíte júnior do 34º andar tinha móveis clássicos e amplas janelas para a Madison Avenue. Sobre a mesa, um detalhe revelador do perfil dos hóspedes – um exemplar encadernado de Thomas Carlyle.

Aquilo tudo estava bem além das minhas fantasias sobre as delícias de New York. Mas disse a mim mesmo que o sonho não iria durar muito – no dia seguinte (assim que surgissem vagas no Hilton) – eu seria convidado a trocar de hotel. Então me deu fome – lembrei que passara o dia à base de sanduíches.

Na entrada do restaurante principal, me deliciei com o suntuoso cardápio emoldurado em prata. Dois casais em black-tie passam por mim e são recepcionados por um maitre cheio de mesuras. As mulheres cheiram a Givenchy e seus colares não parecem bijuterias.

***

Vou adiante e entro no Café Carlyle, onde sou acomodado na última mesa vaga. Olho ao redor – delicados murais em cores pastéis, imensos vasos com flores e um imponente piano negro de cauda. O garção anota meu pedido e quer saber se vou ficar para o “after hours”, pois, para isso, preciso de um sitting tag. Procuro mostrar indiferença, como quem está acostumado a tudo aquilo:

“- Ainda não sei – quem se apresenta hoje?”

E o homem, imperturbável:

“- Senhor, como todas as noites nos últimos dez anos, Bobby Short”.

E, sem que eu perguntasse, informou o valor do sitting tag.

Pedi mais um dry-martini, saborei calmamente o excelente salmão defumado com vinagrete de aspargos e subi para encerrar a noite com Thomas Carlyle.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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