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No Lugar Certo, na Hora Certa

Quando Humphrey Bogart, o cigarro no canto da boca, esvaziava seu .38 de cano curto no bandido de chapéu preto, acrescentava, à moda de …

Quando Humphrey Bogart, o cigarro no canto da boca, esvaziava seu .38 de cano curto no bandido de chapéu preto, acrescentava, à moda de epitáfio: 

“- No lugar errado, na hora errada, amigo.” 

Se invertida, a pequena parábola do cinema noir dos anos 50 poderia explicar certos momentos, em que nos encontramos no lugar certo, no momento exato em que alguma coisa extraordinária acontece em nossas vidas. Um minuto depois ou 100 metros adiante, nada teria ocorrido. 

*** 

Naquela manhã, no então novíssimo Aeroporto Salgado Filho, eu tentava inutilmente uma declaração de um importante político, chegado de Brasília. Desanimei e estava dando a jornada como perdida, quando vi o Alberto Etchart, fotógrafo da Folha da Tarde, às carreiras em direção ao desembarque internacional. Mais por instinto, do que qualquer outra coisa, corri atrás para saber o que estava acontecendo. 

Um Lockheed Constellation da Aerolineas Argentinas acabara de pousar, forçado por avaria mecânica. Na sala de trânsito, alguns passageiros comuns e uma figura radiante, luminosa – a alemã Marlene Dietrich. 

Naquela sala, saboreando os caprichos da sorte, um único fotógrafo e um único repórter. No dia seguinte, a Folha da Tarde estampava na primeira página uma foto em 3 colunas e a única entrevista do “Anjo Azul” no Brasil. 

*** 

Em setembro de 1959, eu também estava no lugar certo na hora certa: diante do número 854 na rua 55, quase na Sétima Avenida, em New York. Cansado depois de viagem, hesitava entre a cama no hotel e o sanduíche de pastrami no Carnegie Deli, uma espécie de botequim requintado de Manhattan, frequentado por lendas vivas da Broadway e de Hollywood. A espera de quase uma hora compensou, pois o pastrami fez jus à fama, acompanhado de um dos melhores cheese cake da cidade. 

Estava pronto para sair, quando notei o animado grupo na mesa ao lado. O centro das atenções era um homem baixinho, que usava um engraçado chapéu de fita e óculos que não escondiam olhos vivos e travessos. Intrigado, me demorei por mais um pouco. O assunto da mesa era o filme que estava prestes a ser rodado na cidade. “Gente de cinema”, pensei. Na hora, não tive certeza, mas me pareceu ter ouvido menções a “Jack” e “Shirley”. 

Mas os garçons já me olhavam de esguelha, esperando pela mesa. No balcão do bar, perguntei quem era o homem de chapeuzinho. E o barman, com um ar de esperto: 

“- É Billy Wilder, of course”. 

Tempos mais tarde, descobri qual o filme que discutiam naquela mesa: “Se meu Apartamento Falasse”, com Jack Lemmon e Shirley McLaine, que no ano seguinte ganharia 8 Oscars e seria apontado como clássico do cinema moderno. 

*** 

Era a pré-inauguração do Resorts International, um dos primeiros cassinos e hotéis de Atlantic City, quando as torres do Caesars e do Trump Plaza ainda estavam no papel. Eu fazia parte de um tour de jornalistas ligados ao turismo, recebidos com mimos e pompas pelo Convention Bureau e pelos donos do Resorts. 

Ainda não havia desfrutado dos luxos da suíte que me fora destinada, quando Luis Barros, que organizara a viagem do grupo, bateu à porta e me pediu para acompanhá-lo. O Luis era o cara mais calmo no frenético mundo do turismo, mas estava nervoso, esfregando as mãos sem parar. Fomos para a galeria envidraçada, de onde se descortinavam os imensos salões de jogos. 

Luis sussurrou: “Te prepara para levar um susto”.

No centro de um imponente grupo de big shots de Atlantic City, vi o que me aguardava. Fui introduzido ao grupo e cumprimentei os figurões, um por um, tentando não parecer deslumbrado demais.

Naquela noite, eu apertei a mão de Francis Albert Sinatra.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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