Não estou convencido se o ensino fundamental, o médio e, depois, o curso superior tiveram alguma importância na minha vida. Aquelas escolas opressivas com professores indiferentes muito pouco influenciaram minha formação. Minha verdadeira formação profissional se deu dentro das agências de propaganda, em especial na DPZ, na época considerada uma das melhores agências do mundo. É possível que a propaganda tenha me dado uma visão de mundo pragmático como o conhecemos mas, sem dúvida, a minha avó e os livros foram as coisas mais interessantes que aconteceram na minha vida e moldaram a minha mente, meu caráter e meu espírito.
O prazer de ler começou na infância quando devorei as obras completas de Monteiro Lobato e “O Tesouro da Juventude”, claro, além de quadrinhos como o “Fantasma”, “Mandraque” e “Dick Tracy”.
Adulto, fiquei estarrecido ao ler a biografia de Gabriel Garcia Marques e me dar conta de algumas coincidências. Como ele, vivi uma infância assombrada: minha avó falava com os mortos e ouvia suas queixas. À noite fazia rituais de esconjuros para me proteger de eventuais ataques de pesadelos, o que agravava tudo, pois os rituais eram mais assustadores que as almas penadas que gemiam nos porões da casa. Minha avó me esclareceu depois que os gemidos tinham origem na falta de lubrificação de um protetor de chaminé que girava ao sabor do vento. No fundo achei aquilo sem graça, embora tenha parado de sofrer dos terrores noturnos.
Já na adolescência li tudo. Lia compulsivamente e, só mais tarde, seletivamente. Contudo, só depois de ler “As Mil e Uma Noites” é que compreendi a magnitude da literatura. Poderia utilizar muito espaço para citar obras e autores, mas não é o caso de showzinho de erudição. O que quero sugerir é que, a literatura, inversamente proporcional à TV, é responsável de forma categórica pela expansão da consciência e da curiosidade pela vida. É a sua diversidade que abre as portas das percepções existenciais, éticas e filosóficas, em suas mais inquietantes dimensões. Não há outro modo de perceber (compreender) a imensidão da natureza humana e seus papéis, livre de maniqueísmos. Por isto podemos compreender, em certa medida, o desencanto das gerações iletradas. A mente “in put”, incapaz de gerar abstrações, engole (sem crítica) o pacote midiático, veloz e letal, oportunista e inconsistente. O resultado mais óbvio disso é esta imensa incapacidade dos garotos e garotas de se comoverem, o primeiro sintoma da cápsula de indiferença em que vivem. O segundo é o hedonismo sem desejo, o tesão sem objeto, o “amor” sem pacto (o corretor automático não quis que eu escrevesse “tesão” e gentilmente me ofereceu a palavra excitação).
Este day by day combinado com a “cultura” capitalista “fuck you, eu quero levar vantagem” nos trouxe a esta animação burguesóide em que todos devem parecer bem sucedidos mesmo não sendo. Com o ânimus histérico – em que sedução é dependente de ostentação-, todos querem receber, aqui e agora, o êxtase prometido pela propaganda, o gozo do consumo sublime, a felicidade em seis vezes, sem entrada e sem juros.
Longe oferecer conclusões moralistas, suponho que é este “vazio” no olhar que promove a necessidade de beijarem 30 bocas numa noite e, por que não, experimentar uma pedrinha e, por que não, fazer qualquer negócio por grana, qualquer negócio.
Grana para comprar recompensas de curtíssimo prazo. Qualquer coisa que possa preencher o deserto das crenças, o oco da imaginação. E, sem imaginação, só é possível se encantar com um par de tênis, com uma bolsa de grife, com a expectativa de uma balada fugaz. E olha que quem está falando é um publicitário.

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