Semana passada escrevi aqui:
“Numa tarde em que chovia, Tom Jobim me anunciou que o Rio estava plúmbeo. Aquela chuva virou poesia, que pode estar numa formiga carregando uma folha, num sorriso de bebê ou até num livro. Basta que também esteja na gente”.
O assunto era família – a minha família – e, dessa vez, recebi um número extraordinário de e-mails congratulatórios, além de doces manifestos de carinho de dois amigos de Coletiva, os quais reproduzo abaixo como um post scriptum, mais como exemplo do que escreverei aqui e menos que uma esfregada no meu ego, já superesfregado, massageado e gratificado.
Negócio seguinte: assim como versos podem não ser poesia, não só palavras fazem ela acontecer. Fatos, situações, olhares, sorrisos também fazem parte do repertório poético.
O verso busca receptores, os fatos os encontram.
Face aos e-mails recebidos esta semana, lembrei-me de antigo registro de minha querida sobrinha Ruth Negrini, que rebatizei de Neguinha:
“Tio, você escreve coisas que eu sinto, mas não sei expressar”.
Outra sobrinha, Sílvia Wolff, mandou:
“Tio Mario, você quando “solta a franga” dessa sua afetividade imensa é uma beleza!”
Não é preciso raciocinar para entender que Ruth se referia a sentimentos semelhantes e que aquela crônica encontrou o imenso afeto da Sílvia pela sua própria família.
Do meu filho não-biológico, o gaúcho Elóy Flores:
“Essa “gripe-família” foi um espetáculo neste momento de tua vida.”
O amigo Aderbal Moura prova que tenho razão:
“Congratulações. Esse sentimento de família é um prêmio da vida. A foto de sua família lembrou a da minha, só que agora desfalcada, mas sempre valorizada.”
Vou contar dois momentos inesquecíveis nos quais a poesia me pegou:
Ilha de Paquetá, RJ, julho de 1949. Eu acabara de completar 18 anos, estava só, em meio à noite estrelada e de imensa lua cheia, sentado numa pedra onde batiam pequenas ondas quando sou tomado pela surpresa impactante do reflexo da lua num mar muito calmo.
Perguntei-me se merecia desfrutar aquilo sozinho e como já me despira de ideias extra-vida, centrei-me na pergunta e nas respostas sobre o que eu queria desta existência que suponho única.
Naquele momento percebi que cada um pode ser o mágico da sua própria existência.
A maioria das respostas que me dei naquela noite de lua cheia iluminou meus caminhos e estão naquilo que a vida deixou que eu fosse.
São Paulo, início dos anos 1950, quarta-feira à noite, na última página da revista Manchete, a poesia me encontra numa charge sem uma única palavra, do Borjalo, de quem eu nunca ouvira falar.
Não vou falar dele hoje que a vida, generosa, me apresentou e se transformou em luminosa amizade. Amizade cujo talento explorei tanto que ele, o Mauro Borges Lopes, dizia que eu era o cafetão do Borjalo.
PS. Comentários ao pé da minha crônica anterior.
“Mas guri!!!
Como tu consegues até com uma baita gripe ter tanta inspiração? Que texto belo e que homenagem às filhas e à família. As linhas que escreves sempre têm muita história e história gostosa de ler. Não se esqueça, quero o lançamento deste livro aqui. Ou me toco aí pro Rio. bjs”
Márcia Fernanda Peçanha Martins – Porto Alegre/RS/Brasil
12/05/2009
“Memorável e amorável
Mario, um dos maiores prazeres nas férias no Rio, em fev/09, foi passar uma tarde contigo. Estar diante da tua humanidade, ouvir histórias de viva voz, compartilhar visões de vida, confidenciar entrechos muito particulares, entre tantas delícias orais, tudo isso permanece comigo, bagagem que não se desfaz. Como já comentei aqui, teu memorialismo sempre transcende, abre um leque com o qual cada leitor abana suas próprias lembranças, e o livro só vai ampliar este efeito. Fico feliz daqui sabendo que o teu sensível coração faz bem ao marca-passo. Abração do amigo a míseros 1.553km, na esperança de muitos e prazerosos reencontros com você.”
José Guaraci Fraga – Porto Alegre/RS/Brasil
Inté.


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