Colunas

Bum bum pra ti bum bum

O Carnaval tem um feitiço que nunca me enfeitiçou a ponto de entrar na avenida, acho isso lamentável. Como qualquer espetáculo, há um carnaval …

O Carnaval tem um feitiço que nunca me enfeitiçou a ponto de entrar na avenida, acho isso lamentável. Como qualquer espetáculo, há um carnaval que desfila, que canta e dança, e outro que fica nas arquibancadas. E ainda um terceiro, o meu, o que não mexe as cadeiras, no máximo mexe um dedo para ligar a TV. Foi deste que participei durante algum tempo para ver os desfiles das escolas, é deste Brasil que eu mais gosto. Além do espetáculo e das alegorias fantásticas, tem os bumbuns de exportação, algo que faz lembrar as obras de arte do acervo da humanidade em que é só permitido a contemplação, não se pode tocar.

À multidão de não importa quem vai ou quem chega, quem manda ou desmanda. É o que de mais genuíno restou do Brasil brasileiro, o mulato altaneiro. Ele sempre foi um outro país dentro da república oficial, com a sua história e seus orixás, pais, mães e filhos de santos, seus temperos, mulatas e tambores, suas crenças e rituais ao  celebrar a vida, ao transformar trapos e sobras em doidas alegorias de todas as cores e brilhos, de onde brotam metáforas e exaltações, em que surgem reis, rainhas e passistas, a corte e seus súditos. Em transe anímico, estremecem em cânticos e frenesis e misturam suas carnes e fluidos sem má fé, e se amam difusos com a inocência dos bichos, e se elevam numa epifania provisória que logo deságua na pororoca de coisa coletiva, em que desponta a ala dos famintos iluminados, e logo vem a das putas comovidas, precursora das Ninfas e Valquírias, seguida pelos animais assombrosos, o Unicórnio, o Tigre de Anã, o Monstro de Aqueronte, a Hidra de Lerna, o Dragão Chinês, o Macaco de Tinta, a Quimera, as Sereias e os Sátiros, numa radiante profusão de cores, reflexos e dourados, paetês, miçangas e purpurina, numa coreografia torrencial de corpos febris, redimidos e abençoados por legítima sensualidade. Uma nação inteira e o planeta se rendem e se curvam quando eles passam, quando dançam, cantam e se consomem dia e noite sem parar ao som de um batuque epidêmico, tomados por uma alegria redentora, por uma fé inquebrantável, ungidos por um suor benigno, devotos de uma esperança imortal, extasiados por um carnaval eterno, amém.

Autor

Paulo Tiaraju

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.