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Tudo que invento é falso. (Manoel de Barros) Um dia eu vi uma moça nuinha no banhoFiquei parado o coração batendoEla se riuFoi o …

Tudo que invento é falso. (Manoel de Barros)

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento … (Manuel Bandeira)

 IX Bienal Internacional do Livro, 1999, Rio de Janeiro.

Num sábado, lá estávamos mulher, duas filhas e Luís Henrique Amorim, então namorado da caçula, Carla, na época estudantes, hoje jornalistas e pais da minha neta Júlia.

Ao passar ao lado de uma editora de enciclopédias, contei que ganhei muitos chopes, em diversas ocasiões, apostando que ninguém conseguia arrancar de um vendedor o preço de uma enciclopédia em menos de dois minutos. Só não valia dizer que era aposta.

Lembrei-me que Jason Tércio acabara de lançar o livro sobre José Carlos Oliveira que, durante mais de 10 anos, até sua morte em 1984, era o mais lido e prestigiado cronista do Rio.

Como o Antonio”s era o “escritório” do Carlinhos, no meu livro sobre o bar-restaurante ele comparece com umas cinco crônicas. Dirigi-me direto para o estande da Objetiva e comprei um exemplar do Órfão da Tempestade, o livro para o qual fui um dos 250 entrevistados.

Mais tarde, passando com o grupo ao lado do estande, fui chamado por Alfredo Gonçalves, bom amigo e sócio da Objetiva.

– Mario, sem trocadilho, sejamos objetivos: veja  aqui o que você quer, mande um fax e eu envio para sua casa.

– Obrigado, Alfredo, mas como acompanho seus lançamentos, acho-me abastecido. Acabei de comprar o livro sobre o Carlinhos e se você me der um outro exemplar para o Luís Henrique aqui, agradeço.

Luís Henrique ganhou seu exemplar e encerramos o périplo.

Dias depois, li que o poeta Manoel de Barros ia dar autógrafos, voltei à Bienal com o meu exemplar do Livro sobre nada, o qual eu havia degustado há pouco e onde registrei um pensamento inspirado pela leitura.

Aproveitei para conhecer pessoalmente o poeta e, face à acolhida cordial, aventurei-me a mostrar o que eu escrevera no meu exemplar:

O que preciso, invento.
O que não
Deixo para os outros.

Ganhei um sorriso generoso e uma dedicatória exagerada: Ao colega Mario de Almeida, o abraço do Manoel.

A sugestão para escrever esta crônica surgiu ontem, 20 de janeiro, feriado no Rio e, pelo menos, em Bagé, onde São Sebastião também é patrono, e o Teatro de Equipe esteve em 1962, participando das comemorações, com a peça de Edy Lima, A Farsa da Esposa Perfeita, que se passa naquela cidade.

Ontem, li num jornal, um micropoema do Manoel de Barros que me alumbrou:

Uma palavra abriu o roupão pra mim, vi tudo dela.

Aos 92 anos festejados no último dezembro, o poeta continua lúcido e criativo.

Como brinde a quem chegou até aqui, três pensamentos manoelinos:

Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.

Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

Inté.

Em tempo:

Rogo ao feliz que me furtou o Livro sobre nada que me devolva o exemplar e a fatia de felicidade que foi junto. Terá indulgência plena.

Autor

Mario de Almeida

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