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O dia em que o Máximo desejou a mulher do Próximo

Próximo era um bom sujeito, crédulo, boa gente. Se Taubaté por ventura tivesse um velhinho, por exemplo, este velhinho seria o Próximo, tamanha a sua …

Próximo era um bom sujeito, crédulo, boa gente. Se Taubaté por ventura tivesse um velhinho, por exemplo, este velhinho seria o Próximo, tamanha a sua fé na boa índole da humanidade. O problema era a sua mulher, além do nome que o predestinou no dia em que se casou com a Margô, uma mulher cheia de curvas, insinuações e com uma vitalidade extraordinária.

Num domingo ensolarado convidaram um casal de amigos para um churrasquinho na casa deles. Quando Máximo, o amigo, viu a mulher do Próximo de biquíni, na beira da piscininha, no fundo do quintal, estremeceu e por pouco não acusou o golpe de forma escandalosa. Após pigarrear sem necessidade, sentiu um gosto de azinabre na boca e uma volúpia fulminante a lhe provocar ferroadas no baixo ventre. A Margô, sempre alerta e operacional, percebeu que o Máximo varreu o seu corpo com um olhar estranho, para não dizer concuspicente, lúbrico, tarado, por assim dizer.

Durante o almoço, enquanto o Próximo virava a picanha na churrasqueira, o Máximo sentiu um pé tocar no seu, por baixo da mesa. Imediatamente lembrou da reputação da mulher do Próximo: ninfomaníaca, devassa, devoradora de homens, dotada de um portentoso furor uterino, Lucrécia Bórgia era uma senhora casta e púdica, comparada àquela fornalha de locomotiva desgovernada. Não era o pé da Margô, era o da mulher dele. Ela o provocara de brincadeira, e o Máximo, sem se dar conta deste detalhe sutil, buscou os olhos da mulher do Próximo, desejoso da sua cumplicidade. E como era de se esperar, foi correspondido. Ao perceber o ambiente entre os dois, a mulher do Máximo pressionou o pé entre as suas pernas, naquela região que os mais bravos zagueiros protegem do impacto de uma bolada. O pobre homem se desconcertou, aquilo era demais, que mulher atrevida, estava vivendo em um filme de Woody Allen, estava em Barcelona, era o supra-sumo, o êxtase do prazer clandestino… Esqueceu da mulher (a dele), de sua mente, de seu corpo, nada mais existia, a Grande Resposta da vida resumia-se naquele pé sem vergonha e mensageiro do porvir.

O chute, com o calcanhar, veio curto, seco e forte. Máximo olhou para a mulher do Próximo com expressão desfigurada pela dor. Por que? Por que? Parecia perguntar atordoado. Mesmo assim dissimulou como pôde o sofrimento que o empalideceu. Que mulher louca, pensou, sem entender as gargalhadas da sua mulher, e a Margô, com justa razão, confusa, riu junto para ocultar sua excitação mal passada, gotejando hormônios indomáveis em seu braseiro, semelhante às picanhas que assavam na churrasqueira.

Sempre simpático e sociável, Próximo aproximou-se da mesa rindo também, mesmo sem saber por que todos riam, inclusive o Máximo que, a pretexto de rir, aproveitou para urrar de dor com mais liberdade. Mas, enfim, tudo era festa, e Próximo levantou o copo de cerveja para brindar à saúde e à amizade de todos.

Em breve o incidente renderia seus frutos. A carne é forte, é o espírito quem é fraco, como diz o outro. Duas semanas depois, num quarto de motel, Máximo, ainda ofegante, divagava, na ânsia de administrar seu conflito de consciência: não vou me culpar, ah, não vou mesmo. Não sou o primeiro nem o último a ir para cama com a mulher do Próximo… coitado. E a Margô, suspirante, pensou mas não disse: nunca antes na história deste país um homem me fez sentir essas coisas, este cara é o máximo.

Autor

Paulo Tiaraju

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