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De lembranças e de um esquecimento

Já dei notícias de que escrever em Coletiva “ressuscitou” amizades perdidas nos caminhos do tempo. Meu e-email no final da coluna permitiu que muitas …

Já dei notícias de que escrever em Coletiva “ressuscitou” amizades perdidas nos caminhos do tempo. Meu e-email no final da coluna permitiu que muitas delas dessem notícias e o “papo” não parou mais. Isso ampliou o universo afetivo que a Internet colocou nos dedos da gente.

A última vez que estive com Rubens Teixeira “ao vivo” foi em Porto Alegre, 1958. Na telona, em 1969, fazendo o “Diabo” na primeira versão para o cinema do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.

Semana retrasada recebi:
“Mário

Eis que um técnico, ao verificar meu nome no Google, deixou o computador aberto na página do teu artigo, contando as reminiscências da nossa mocidade. Por momentos, revi toda a trajetória em que estivemos labutando pelas causas perdidas do teatro. Mas vibrei pela lembrança, pela fome, sonhos e devaneios do Rio antigo”.

A crônica à qual o Rubens se refere – “Lembranças do estômago” – saiu aqui em 2 de março de 2004, e contava da nossa amizade e do Oswaldo Loureiro, inaugurada no Rio, em 1955, quando estávamos, os três, no elenco de O Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, uma produção da família do autor.   

Trecho de uma das “lembranças do estômago”:

Oswaldo Loureiro tinha as refeições garantidas, pois morava com os pais, na Lapa, onde eu, num hotel, dividia um quarto com um universitário do Maranhão. Rubens e eu fazíamos rodízio pelos restaurantes populares. Apesar da peça haver ficado em cartaz muitos meses, por diversas ocasiões nossos salários atrasaram. Como era impossível atrasar o pagamento do hotel, nesses apertos o almoço ficava inviável. Então, o Rubens ia para a Caixa Econômica, “pendurava” o relógio e a gente baixava num “china”, nos Arcos da Lapa, para dividir um prato feito. O garçom melhorava o esquema com um pote de farinha, um vidro de pimenta, uma garrafa d’água e um simpático “bom apetite”. Quando saía o pagamento, eu acertava as contas com o Rubens e íamos à Caixa “despenhorar” o relógio. A gente se antecipava ao Zeca do Pagodinho quando canta “deixa a vida me levar”.

À grande alegria de haver recebido o e-mail do Rubens juntou-se a enorme surpresa de um fato que ele conta e do qual eu não tenho a menor idéia:
“Lembrarei também tua ousadia que conto, com muito prazer, para meus alunos.
Local – Porto Alegre
Cenário: Theatro São Pedro
Personagens: Cacilda Becker, Mário de Almeida e eu.
Sinopse: Trabalhando no Theatro São Pedro com o Teatro Cacilda Becker, ano 1958, Cacilda perguntou-me se eu conhecia algum diretor jovem que tivesse talento, porque queria dar oportunidade a um que tivesse cultura e bom conhecimento de teatro.
Eu disse que sim e que estava morando em Porto Alegre.

Feliz, comuniquei a ti que Cacilda, tá, tá, tá, tá.. O diálogo no camarim da prima-dona:
Cacilda – Mário, gostaria de convidar…etc…  …etc… explicou o plano, os objetivos… (pensei comigo: – acho que o Zimba está envelhecido!) após uns 15 minutos concluiu: gostaria de te convidar para dirigir uma peça no TCB.

Mário – (após longa pausa e minha expectativa) Há, porém, um problema…

Cacilda – Qual?

Mário – (categórico) Eu não dirijo estrelas! (ah! ah!ah!).

(Pano rápido)

(E com isso não desempregaste o Ziembinski).”

Pois é, essa decisão eu esqueci, mas entre as muitas e rigorosas privações impostas pelo amor ao teatro, o final da crônica comentada pelo Rubens é das mais gostosas lembranças de quem, inclusive, anos depois, lutava contra a obesidade:

“Durante os últimos tempos do Vestido, dirigi com alguns atores do elenco, em sistema cooperativo, a peça infantil A Revolta dos Brinquedos, de Pedro Veiga e Pernambuco de Oliveira. E fomos para Juiz de Fora, terra do Rubens, apresentar espetáculos vendidos com antecedência. Ficamos hospedados numa pensão da main street da Manchester mineira, Rua Halfeld, com as refeições incluídas. Logo depois do primeiro e fartíssimo jantar, o dono da pensão chegou para mim e disse:

– Desculpe a curiosidade, mas o senhor come sempre assim?

– Não, só quando tem comida.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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