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Feios, sujos e malvados

Não sei dizer em que medida a crônica, para quem escreve, é um método confiável em que o cronista dá uma volta no “quarto …

Não sei dizer em que medida a crônica, para quem escreve, é um método confiável em que o cronista dá uma volta no “quarto de despejo” do seu inconsciente para, digamos, elaborar, rearranjar, compreender, exaltar, ou descartar-se das suas impressões de vida. 

Não aquelas que foram assimiladas pelo exercício da tolerância entre os homens de boa vontade. Me refiro às pequenas estranhezas, tão desconfortáveis quanto denunciadoras, quando percebemos que nossos conhecidos, às vezes amigos ou pessoas de nossa confiança, manisfestam traços reveladores de que suas atitudes e pensamentos foram adulterados, ou pela passagem do tempo, ou por uma nova posição social.

É quando você percebe que aquela velha cumplicidade desbotou, substituída por modelos “politicamente corretos”, ou condutas afetadas. Súbito você causa algum constrangimento ao utilizar palavras impróprias para pessoas de pejo. Até bem pouco tempo a gente dizia que algo muito bom “era do caralho”. Na impertinência em dizer que “é do pênis”, como forma de evitar-se a linguagem chula, não dizemos mais nada. E a estranheza surge quando vemos um amigo confiável, agora refém da formalidade, regredir para a expressão “fora de série”. Ele disse que achou tal coisa ” fora de série”, isso quando não diz que é “jóia”.

Que dizer, o bom e velho “do caralho” está banido. Caetano Veloso, em uma das suas canções, reproduziu os versos de um poeta cujo nome agora me foge, em que diz que a linguagem é a verdadeira “mátria”, ou a pátria subjacente e pulsante. Ou seja, tudo que se diz, e como se diz, converte-se em “cultura” circunstancial. Eu, por exemplo, sinto um arrepio ruim quando alguém me manda “um beijo no teu coração”. O exagero é proporcional à falsidade da intenção.

Não sei, conheci alguns canalhas que são pródigos no uso ostensivo da formalidade verbal socialmente ajustada. Costumam referir-se à mulher como a “sua senhora”, ou sua “senhôra”, para dar um tom ainda mais reverencial. Gostam de cumprimentar com a ponta dos dedos, ou pressionar o dedo indicador no teu pulso e dizer: “Como tens passado? E a família? Vai bem?”  E quando comentam sobre seus amigos, chamam a todos de doutor, o doutor fulano, o doutor sicrano. Fuck you. Quase sempre são camadas e mais camadas de verniz para ocultar alguma perversão, ou, quem sabe, práticas ilícitas. Quase todos os picaretas envolvidos na rapinagem dos R$  40 milhões do Detran tratavam-se mutuamente de “doutor”.

A perplexidade emerge quando a gente se dá conta que os players, na intimidade, são toscos, conforme ficou demonstrado nas gravações feitas pela Polícia Federal. Diziam: “São 40 paus pra mim, tu leva 50 e a gente racha a sobra com os outros, tá bem certinho?”. “É… 50 quilos de alcatra tá de bom tamanho”. E em público: “A minha senhora falou com o doutor fulano e segundo ele todas as exigências legais e protocolares estão regularizadas”. Do caralho, ou melhor, fora de série, jóia. São políticos renomados, personalidades eméritas, reitores excelentíssimos, engomadíssimos, de colarinhos e pins cintilantes na lapela, simbolizando as suas respeitáveis e sacrossantas instituições. Camadas e mais camadas de verniz, sofisticados jogos de retórica e ilusionismo, a exuberância da engenharia criminosa. E aí me vem à cabeça o memorável “Cálice”, de Chico e Milton Nascimento: “…de muito gorda a porca já não anda, de muito cega a faca já não corta…”.

E eis que surge um jovem de terno escuro, com cara de coroinha, entrincheirado nas fileiras do Ministério Público, sente o cheiro da falácia, da coisa fraudulenta e ardilosa, pega o fio da meada e dá o puxão. Rapidamente a palavra “honra” é sacada do colete dos envolvidos. Os advogados são mobilizados, textos são redigidos nervosamente na madrugada de sanduíches, café preto e lexotan. Finalmente, quando as investigações descobrem que “a minha senhôra” era laranja de uma das empresas de fachada, quando o escândalo estoura, como numa cena de filme de última geração dotado dos mais avançados recursos gráficos digitalizados, o terno impecável se torna roto, o sorriso profissional vira uma careta medonha, o verniz goteja tingindo o colarinho branco de um amarelo caramelado e purulento. E surge diante dos nossos olhos a verdadeira natureza dos feios, sujos e malvados. Este tempo todo estavam ocultos por suas atitudes “politicamente corretas”, pelo linguajar afetado, devidamente clicados na coluna social. Macacos me mordam, ou melhor, símios me degustem se a população não achar que os jovens e idealistas procuradores do MP são pessoas do caralho, ou melhor, fora de série.

Autor

Paulo Tiaraju

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