Quando eu morrer não quero nem choro nem vela,
Somente uma fita amarela, gravada com o nome dela.
(Noel Rosa)
Abro o computador sábado, para enviar minha crônica que já estava pronta, levo um susto com a foto de Caymmi e sou agredido com a notícia da sua morte.
Há aqueles que inserimos no nosso universo pessoal como se pertencessem à eternidade, e a gente supõe que o eterno para nós seja eterno para o mundo. Caymmi era um deles e mais uma vez “caí na real”.
Fim de tarde de 1963, eu estava de chefe de reportagem da Última Hora de Porto Alegre, fui à Reitoria da Universidade fazer não sei o quê. Ao sair, resolvi tomar um cafezinho na cantina, um imenso espaço vazio naquela hora.
Quase absolutamente vazio, pois uma mesa estava ocupada por uma única pessoa: Dorival Caymmi.
Era sabido que ele daria um show naquela noite, lá no auditório da reitoria, mas achei uma distração da cidade deixá-lo sozinho. Eu não conhecia o Caymmi pessoa e fiquei indeciso entre a vontade de apresentar-me e o risco de ser inoportuno.
Considerando um abuso do acaso ele estar só, apresentei-me, perguntei se podia fazer-lhe companhia e ele, apontando a cadeira com um sorriso, acolheu-me. Ele tomava um conhaque, eu pedi o mesmo e conversamos.
Teatro Municipal, 1983, entrega do Prêmio Shell de Música e, na qualidade de compositor premiado, o patriarca reuniu os Caymmi do ramo no palco: Nana, Dori e Danilo. Então eu já conhecia Nana e Dori, mas foi a segunda e última vez que vi o baiano carioca ao vivo.
Dori foi meu colega de TV Globo e a gente se via muito no Antonio”s, onde conheci a irmã, Nana.
Dori mudou-se para Los Angeles mas continuei meus papos com Nana no nosso ponto comum e, inclusive, participei de um aniversário dela comemorado lá no Antônio”s.
No livro sobre o bar/restaurante, registro uma récita mágica na casa do Tom Jobim, ele no piano, ela se revezando como lady crooner e garçonete. O jornalista Lúcio Rangel completava o trio com seu inigualável sax nasal. Na “platéia” só o figuraço Roniquito e eu.
Ao lembrar-me de algumas canções de Caymmi que povoaram meus ouvidos desde a infância, lembrei-me de alguns versos de outros compositores que saltam de suas músicas como se a poesia deles fosse um momento histórico:
… Tu pisavas nos astros distraída… (Orestes Barbosa)
… Adeus, cinco letras que choram … Quem fica, também fica chorando com o lenço acenando querendo partir também. (Silvino Neto)
… Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor. (Guilherme de Brito , Nelson Cavaquinho e Alcides Caminha)
… Se alguém perguntar por mim diz que fui por aí levando um violão debaixo do braço (Zé Kéti e H. Rocha)
Caymmi veio para o Rio em 1938 e emplacou um grande sucesso – O que é que a baiana tem? – que Carmen Miranda popularizou com uma notável interpretação. Em 1940, outro grande sucesso: Quem não gosta de samba bom sujeito não é/ É ruim da cabeça/ Ou doente do pé”.
Paulinho da Viola, bom sujeito até demais, no Carnaval de 1970, na primeira saída da Banda de Ipanema, distribuía pessoalmente a letra do samba, hoje já um clássico, “foi um rio que passou na minha vida, e meu coração se deixou levar”, coisa que Zeca do Pagodinho transformou em “feitio de oração”: Vida leva eu e deixa a vida me levar.
Conto agora o que disse para Caymmi naquele fim de tarde de 1963, depois de citar de memória esses versos:
Os clarins da banda militar
tocam para anunciar
Sua Dora, agora vai passar.
– Caymmi, não sei e nem quero saber quem foi essa “Dora, rainha do frevo e do maracatu”, mas se eu fosse ela, eu dava.
Inté.

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