Enquanto a divisão cultural da Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro anunciava homenagem aos 100 anos do nascimento de Artur Azevedo, a Casa de Cultura Laura Alvim divulgava que “para comemorar o centenário de morte do lendário Artur Azevedo…”.
Esse equívoco de trocar a data de morte com a data de nascimento (EMERJ) e o outro de “comemorar” a morte, em vez de prestar tributo à memória, mexeu comigo. Morte só se comemora de ex-ditadores, seus apaniguados e de outros nefastos.
Esses equívocos lembraram-me que Artur Azevedo foi-se em outubro de 1908, ou seja, este é o ano do centenário de sua morte.
Do autor cujo sesquicentenário de nascimento ocorreu em 1855, dirigi três peças: “A Pele do Lobo”, “A Almanjarra” e “Amor por Anexins”, este um pequeno e bem-humorado ato escrito aos 16 anos, no qual um casal jovem dialoga quase que só com provérbios (anexins).
Há 49 anos, Nilda Maria e Paulo José deram vida a esse texto até em praça pública de Porto Alegre.
Assinei a direção e os cenários de “A Almanjarra”, para o Teatro Rural do Estudante, que inaugurou em 1956 o Teatro Artur Azevedo, da prefeitura do Rio,
Escolhi e dirigi “A Almanjarra” para a inauguração do nosso Teatro de Equipe, em 1960,
Foi na então capital federal que Artur prestou um dos maiores serviços às artes cênicas e à música, numa incansável campanha pela construção de um teatro para o Distrito Federal.
Pesquei na Internet um texto que resumo:
Artur Azevedo, em suas crônicas, insuflou sozinho, por 15 anos, uma campanha em favor da construção de uma casa que oferecesse a um grande público os melhores espetáculos, dignificando o país e o município do Rio de Janeiro.
Em 1909, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado, com Hino Nacional e discurso de Olavo Bilac, um ano depois da morte de Artur Azevedo.
Supondo que não conseguiria entrar para a história das letras, como o seu irmão mais jovem, o Aluísio, “imortal” da ABL (“O Mulato, “O Cortiço”, etc.), ele escreveu:
“Quando eu morrer, não deixarei meu pobre nome ligado a nenhum livro, ninguém citará um verso meu, uma frase que me saísse do cérebro; mas, com certeza, hão de dizer: Ele amava o teatro, e este epitáfio moral é bastante, creiam, para a minha bem-aventurança eterna”.
Aquele prolífero crítico, cronista, contista, jornalista, dramaturgo, um verdadeiro homem de teatro, só não se deu bem como profeta.
Quem não se lembra do conto “O Plebiscito”, há muito um clássico da nossa literatura?
Início da década de 1990 do século passado, Fernando Collor de Mello, eleito presidente, face à promessa de eliminar os “marajás” da República, não demorou a evidenciar seu propósito de tornar-se Sua Excelência, o Marajá Sucessor e Único.
Quando começaram a pipocar as muitas histórias do presidente e de seu tesoureiro – Paulo César Farias –, minha irmã Célia, de Ribeirão Preto, telefonou-me perguntando se eu me lembrava de uns versos que se referiam a um crápula. Quando ela começou a me dar as coordenadas, lembrei-me, pois eles estavam nas antologias escolares.
Lembrar, lembrei. Lembrei da existência dos versos e até de duas ou três palavras, mas nem seu autor saltou-me da memória. Lembrei-me, então, do Manoel Carlos. Mal comecei a falar pelo telefone e ele sapecou-me, na bucha, os 14 versos do soneto de Artur Azevedo. Pedi que ele ligasse para o meu telefone, aguardasse a secretária eletrônica e dissesse os versos novamente. Dito e feito.
Dias depois, minha irmã recebia pelos Correios uma cópia, pois o acesso à Internet ainda não estava liberado.
Era tanta a semelhança do presidente com a personagem do soneto que quase simultaneamente, ainda que com um verso de pé quebrado, Millôr Fernandes publicou-o no Jornal do Brasil.
Eis a intuição do poeta autor de “Rimas”.
Velha Anedota
Artur Azevedo
Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta.
Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:
– Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? –
Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: – Juízo.
Desde a década de 1920, Artur Azevedo empresta seu nome ao segundo mais antigo teatro do Brasil, aberto em 1817, o União, de São Luís, cidade natal do escritor. Rio e São Paulo são outras cidades que homenageiam o dramaturgo com seu nome em teatros municipais.
Em 1972, no Rio, assisti a uma maravilhosa montagem de “A Capital Federal”, texto do sempre lembrado Artur por todos que amam o teatro, um dos mais belos espetáculos dirigidos pelo meu amigo-irmão Flávio Rangel, que entrou pela primeira vez num teatro – Leopoldo Fróes, São Paulo – aos 19 anos e quando saiu da vida, aos 54, sabia tudo, absolutamente tudo do seu ofício.
Artur Azevedo faz parte da nossa história, assim como Lindolfo Collor, o primeiro Ministro do Trabalho (1930).
Se esse Fernando, o neto do Ministro, também ficar na História, vai aparecer muito mal na foto.
Inté.


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