Em 1997, estive semanas em Bournemouth, cidade do litoral inglês onde fui dar um up grade no meu precário trato do idioma de Shakespeare.
Há pouco tempo Bournemouth teve seus 15 minutos de fama no Brasil, por conta dos peitos de uma estudante pernambucana que foram devidamente manipulados pelo príncipe William.
Ao despedir-me de “Burmauti”, incluí Cambridge como cidade visitada e depois fiz alguns périplos pelos pubs londrinos antigos (de Londres e não de Londrina), como o Citie of Yorke, aprimorando minha pronúncia do Johnny Walker Black Label.
Visitei a National Galery, bem defronte à estátua do Almirante Nelson, que venceu a esquadra franco-espanhola em 1805, mas não conseguiu se desvencilhar dos cocôs de pombos que rodeiam o tributo à sua vida e à sua morte na batalha de Trafalgar.
Há quase 40 anos, presenciei um gesto coletivo daquela cidade tão castigada na Segunda Guerra. Um placar defronte à Nacional Galery ia apontando quantas libras faltavam para que uma tela de Turner – um de seus maiores artistas – fosse repatriada. Fui conhecer a obra que fora o motivo daquela aula prática de cidadania.
Meu velho e grande amigo Filippelli, casado com minha prima-irmã Maria Eunice, residia em Londres, ambos publicitários e trabalhando no escritório internacional da Rede Globo na Inglaterra. Filei um jantar deles, que incluiu naquela noite meu brinde comemorativo à morte de Geisel, o penúltimo ditador.
Filipa insistiu em levar-me e, ao estacionar defronte ao hotel, ao lado do Hyde Park, comentou a coincidência: eu estava hospedado no prédio que havia sido a Casa do Brasil no Reino Unido e que deixara de existir.
Dia seguinte, fiz a mala e para não pagar mico atravessei o Canal da Mancha por baixo, no Eurotrem. O mico seria voltar para o Rio sem dar um pulo até Paris.
Ivan Carneiro, artista plástico que serviu a propaganda por décadas, meu amigo e vizinho, chegou ao hotel onde eu também me hospedaria, no Odéon, um dia antes de mim. Para grata surpresa de ambos, estávamos a
Essa proximidade com a memória da inteligência francesa nos lembrou que, conforme Hemingway, “Paris é uma festa”. Então, Ivan e eu fomos levar flores a uma socióloga brasileira que residia na mesma rua do primeiro endereço do escritor naquela cidade: Notre-Dame-des-Champs,
Que fazer, além de levantar uma taça de vin rouge como gratidão àquele que nos brindara com uma herança literária de há muito degustada?
Santé!


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