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De amigos e convivas

Minha alma canta Vejo o Rio de Janeiro Estou morrendo de saudades Rio, seu mar Praia sem fim Rio, você foi feito pra mim(Samba …

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito pra mim
(Samba do Avião)

Quando Romário comemorou seu milésimo gol, dei-me conta de que a grande virtude do artilheiro era estar no lugar certo no momento certo.

A melhor doação que a vida me proporcionou, além dos familiares, foram milhares de amigas e amigos.

Nessa doação, muitas vezes, o acaso foi meu cúmplice. Em 1968, fui morar num edifício de 20 apartamentos, em Copacabana, e o síndico era o compositor Francisco Mignone. A transição de síndico para amigo levou menos que um semestre.

No edifício ao lado, morava uma jovem senhora que cooptei para ser a mãe de minhas filhas. Aí já não foi doação, foi fortuna mesmo.

O acaso com Mignone foi apenas mais um caso onde conhecer a pessoa veio após o conhecimento e a admiração pelo trabalho da mesma. Quando fui morar em Porto Alegre, por exemplo, já havia lido Erico Verissimo, Quintana e sofrido as angústias do Nazazieno de “Os Ratos” para pagar a dívida com o leiteiro. Em 1961, o autor, Dyonélio Machado, estava conosco, no Teatro de Equipe, no Comitê de Artistas e Intelectuais Pró-Legalidade. E Lupicínio Rodrigues, que eu só conhecia pelo ouvido, me entregava, na “Última Hora”, em papel de embrulhar pão, histórias da sua vida. 

Ainda em Porto Alegre, Ovídio Chaves, dono do Piano Bar, que festejou muitos espetáculos que eu dirigi com uma “boca livre” para todo o grupo, muito antes de conhecê-lo já me encantara com um antigo clássico da MPB, “Fiz a cama na varanda”. Em 1980, minha mulher contratou o grupo de Dilu Mello como animadora do segundo aniversário da minha filha Rachel. Daí em diante, festa da outra filha, Carla, e algumas outras subseqüentes contavam com a Dilu, a parceira do Ovídio nessa cama na varanda.

Lá pelo anos de 1960, eu dirigia a conta da Shell, na Standard Propaganda, no Rio, e meu amigo Filippelli, em São Paulo, a conta da linha química da empresa. Filippelli pediu-me contato com o escritor Orígenes Lessa, coisa que eu já havia feito com Jorge Amado, na Bahia, para a Rhodia, consultando a possibilidade de realização de alguns trabalhos.

Com o autor de “O Feijão e o Sonho”, o contato virou convívio e, por coincidência, o filho, Ivan, foi colega na TV Globo. E Elsie Lessa, ex-esposa do Orígenes, lá de Cascais, onde viveu seus últimos anos, autorizou a publicação de uma crônica que abre o meu livro sobre o “Antonio”s”.

O bar e restaurante Antonio”s foi o meu grande “lugar certo no momento certo”. Desde que abriu suas portas, em 1967, fiz dele o meu ponto. Eu e muita gente.

Num fim de tarde, no balcão, só Fernando Sabino e eu, defronte ao uísque nosso de cada dia, começamos uma conversa de solitários num bar. Eu o conhecia de fotografia e ele nem sabia da minha existência. Nossa empatia comum começou naquele mesmo dia, depois de um longo papo sobre o “carro-chefe” de sua carreira literária, o “Encontro Marcado”, que eu havia lido dez anos antes. 

Uma noite, sentado à mesa com o Ruy Guerra, ganhamos a presença do Di Cavalcanti. O desenho que ele rabiscou numa comanda, devidamente assinada, virou meu troféu daqueles tempos.

Para Vinicius, que eu conhecera no Uruguai, virei o Almeidinha. Walter Clark, Boni, Borjalo, Otto Lara Resende e Rubem Braga eram da Globo, onde fui implantar a agência de propaganda, mas o convívio foi no Antonio”s mesmo.

Nos anos 1950, as charges do Borjalo ocupavam a última página da revista Manchete, que circulava às quartas-feiras e ainda trazia crônicas de Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos. Se eu chegasse em casa, esquecido de levar a revista, voltava para comprar. Tudo gente que bem depois era sócia do “clube” chamado Antonio”s.

A amizade com o Borjalo assumiu caráter de exploração. Ele, a pedido, fez charges para o meu livro “História do Comércio no Brasil – Iluminando a Memória” e autorizou o uso de outras em situações diversas. Certa vez, ao autorizar o uso de um trabalho dele, depois do suspiro, sintetizou:

– Tudo bem, já que você é a minha cafetina!

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim – o Tom –, eu conheci no Antonio”s mesmo e a amizade se estendeu por outros endereços, inclusive o dele. 

A última vez que estive com Tom, na Churrascaria Plataforma, assumiu, na minha memória, um espaço emblemático.

Eu, na saída, após um almoço de trabalho, fui chamado por ele, sentado sozinho atrás de um chope. Despedi-me dos que me acompanhavam, sentei-me (lugar estratégico, atrás de uma coluna, onde se via quem chegava sem ser visto) e começamos a jogar conversa fora. Houve uma menção ao Vinícius, que já era nome da rua onde nasceu a “Garota de Ipanema”. Eu pedi licença e fiz a pergunta:

– Você não acha que deviam esperar para mudar o nome da Rua Montenegro para Tom e Vinicius?

Ele, quando pensava, dava a impressão que estava olhando para o infinito. Depois de uma pausa, não muito curta, respondeu:

– Acho.

Após tentativas frustradas de mudar o nome de avenidas, o autor do “Samba do Avião” virou o Aeroporto Internacional Tom Jobim. 

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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