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Mario Quintana deu-me o mote

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”Digo… e retorço as pobres mãos cansadas:“Eu sei chorar… eu sei sofrer… Só isto!” Essa necessidade …

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”
Digo… e retorço as pobres mãos cansadas:
“Eu sei chorar… eu sei sofrer… Só isto!”

Essa necessidade do poeta em busca do inédito é um tema recorrente na história da crônica.

Os cronistas, com caneta na mão, sentados diante do papel em branco, quantas vezes confessaram a dúvida na escolha de um assunto? A máquina de escrever não eliminou a dúvida. Nem o computador. Pior: milhares de cronistas fizeram o dever de casa confessando a falta de assunto.

Agora, diante da tela em branco no computador, onde digitei esses versos, em vez do “novo e de imprevisto”, fico pensando no motivo do poeta resumir sua existência como um ato de dor.

Será que Quintana desprezava o seu lado alegre, quase sempre pícaro, com aquele sorriso que afirmava a permanência da infância? Prefiro acreditar que ele habitava um universo onde viver é compulsão, paixão é escolha.

Nesses três versos finais do soneto, onde o poeta se diz cansado do ofício (e da vida), ele resume sua trajetória como um aprendizado da dor.

O “só isso” do soneto agride a minha memória e os milhões de encantamentos surgidos no meu caminho. Lembrei-me jovem, em São Paulo, no fim da tarde, quando na volta para casa, comprava a Folha da Tarde para ler no bonde a crônica de Rubem Braga. Era um encantamento.

Numa crônica aprendi que se pode ganhar numa despedida, numa partida, como eu acho que sempre há e haverá ganhos em todas as chegadas.

Ensina o mestre: “Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito. E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho? Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil”.

Esse trecho dialético do cronista briga com o “só isso” do Quintana.

Invento os dois sentados num banco da Praça da Alfândega trocando idéias quando Rubem Braga “asilou-se” em Porto Alegre, na Casa de Olga e Carlos Reverbel, dizendo-se um fugitivo político do Estado Novo.

Imagino que o velho Braga viveu sentimentos semelhantes quando daquela súbita partida, pois acredita-se que a alegação de fugitivo político era, na verdade, a fuga de um marido corno, mas não manso.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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