No dia em que li a notícia que havia diminuído a população do Uruguai, comecei a pensar nas contradições do “maior”.
Coisa que as pessoas gostam é do maior.
Percebi isso assim que me alfabetizei, pois os bondes de São Paulo traziam o lembrete ufanista: São Paulo, maior cidade industrial da América Latina.
Aquela minha São Paulo com menos de três milhões de habitantes foi buscar nas chaminés das fábricas o orgulho de ser maior em alguma coisa.
Hoje é muito maior em tantas outras coisas e só perde, na América Latina, em população, para a Cidade do México.
Perde?! Perdeu! Aquela província da minha infância perdeu a sua maravilhosa qualidade de vida.
O bonde, o então eficiente transporte de massa, fazia o seu trajeto, durante o dia, em menos tempo que o automóvel faz hoje.
Nesses bondes, à noitinha, boa parte da população voltava para casa lendo a segunda ou terceira edição do seu jornal diário.
O maior, atualmente, pode assumir proporções gigantescas como, por exemplo, no hipermercado – hiper não é o maior que super?
Sugiro aos empresários do ramo que criem os megamercados, com uma sinalização mais compatível com a moderna política do corpo.
Grandes placas podem orientar o percurso do consumidor em metros e/ou quilômetros. Exemplos: Do feijão aos laticínios – 1.500m; Dos Matinais aos condimentos –
A gente poderia ouvir conversas assim: – Pô, nos primeiros
Sempre que anunciam um shopping center maior, a primeira pergunta que me ocorre é “Já imaginaram isso lotado?”
Certa vez, numa entrevista de rádio, pediram-me um exemplo de 3º mundo. Resposta: Shopping center cheio.
– 1º mundo? Shopping center vazio.
Quando há 29 anos, fizemos as trouxas e viemos morar na Barra da Tijuca, os amigos diziam: – Pô, é muito longe! Resposta: – Longe relativo, até a Gávea são menos de 15 minutos, depois é igual para todos os cariocas.
A continuação dessa história todo mundo conhece: cada ano que acabava deixava a notícia que, proporcionalmente, a Barra tinha tido o maior crescimento populacional do Rio. Com esse maior, o tempo de chegar à Gávea foi aumentando, aumentando e, é claro, ficou muito, muito maior.
Por absoluta necessidade, foram instaladas aquelas luzes que os paulistas chamam de farol, os cariocas de sinal e Jânio Quadros e Antonio Houaiss chamavam de semáforo.
Tenho certeza que parte dos leitores ao ler esses resmungos há de reclamar: – Mas esse cara quer o progresso de que jeito?
Fico eu, aqui, atônito, perguntando-me a quem, afinal, interessa esse tipo de progresso. E afirmo, sem saudosismo, com extrema objetividade, que, em muitos casos, o que eu quero mesmo é o regresso.
Tirem das ruas, por favor, a praga dos camelôs, tirem os carros das calçadas, acabem com os engarrafamentos, com os assaltos, com a poluição visual e do ar e com o fedor das lagoas pútridas.
Isso feito, podem até deixar um ou outro cocô de cachorro que não troco nenhum comércio de rua pelo aglomerado sem alma e sem história dos shopping centers.
Gosto da “urbi”, da arquitetura, da mescla social sem a seleção do dinheiro, gosto dos cheiros, de todas as propostas de vida que, a toda hora, são oferecidas, na rua, ao passante mais atento ao ato de existir.
Em muitos e muitos casos, como esse, o progresso desperta a vontade do regresso. Nesse confronto entre “pro” e “re”, nessa permanente dialética do tempo, onde o atual destrói o antigo, onde o novo chega e se instala com jeito de verdade, fica, pelo menos, uma lição: sempre que possível, tente o melhor. Quase nunca é o maior.
Isso inclui minha idéia que um casal deve ter dois filhos, ou seja, participar, apenas, da reposição do estoque.
Inté.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial