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Vou me embora pro Uruguai

No dia em que li a notícia que havia diminuído a população do Uruguai, comecei a pensar nas contradições do “maior”. Coisa que as …

No dia em que li a notícia que havia diminuído a população do Uruguai, comecei a pensar nas contradições do “maior”.

Coisa que as pessoas gostam é do maior.

Percebi isso assim que me alfabetizei, pois os bondes de São Paulo traziam o lembrete ufanista: São Paulo, maior cidade industrial da América Latina.

Aquela minha São Paulo com menos de três milhões de habitantes foi buscar nas chaminés das fábricas o orgulho de ser maior em alguma coisa.

Hoje é muito maior em tantas outras coisas e só perde, na América Latina, em população, para a Cidade do México.

Perde?! Perdeu! Aquela província da minha infância perdeu a sua maravilhosa qualidade de vida.

O bonde, o então eficiente transporte de massa, fazia o seu trajeto, durante o dia, em menos tempo que o automóvel faz hoje.

Nesses bondes, à noitinha, boa parte da população voltava para casa lendo a segunda ou terceira edição do seu jornal diário.

O maior, atualmente, pode assumir proporções gigantescas como, por exemplo, no hipermercado – hiper não é o maior que super?

Sugiro aos empresários do ramo que criem os megamercados, com uma sinalização mais compatível com a moderna política do corpo.

Grandes placas podem orientar o percurso do consumidor em metros e/ou quilômetros. Exemplos: Do feijão aos laticínios –  1.500m; Dos Matinais aos condimentos – 2,3 km. Isso permitiria que o consumidor organizado, planta baixa do mega na mão, possa orientar o seu Cooper.

A gente poderia ouvir conversas assim: – Pô, nos primeiros 700 metros a inflação foi de 11% em 8 dias; dos 1.600 aos 3.100 metros tem excelentes promoções; fuja do km 8, as remarcações dispararam pra cima de 40%.

Sempre que anunciam um shopping center maior, a primeira pergunta que me ocorre é “Já imaginaram isso lotado?”

Certa vez, numa entrevista de rádio, pediram-me um exemplo de 3º mundo. Resposta: Shopping center cheio.

– 1º mundo?  Shopping center vazio.

Quando há 29 anos, fizemos as trouxas e viemos morar na Barra da Tijuca, os amigos diziam: – Pô, é muito longe! Resposta: – Longe relativo, até a Gávea são menos de 15 minutos, depois é igual para todos os cariocas.

A continuação dessa história todo mundo conhece: cada ano que acabava deixava a notícia que, proporcionalmente, a Barra tinha tido o maior crescimento populacional do Rio. Com esse maior, o tempo de chegar à Gávea foi aumentando, aumentando e, é claro, ficou muito, muito maior.

Por absoluta necessidade, foram instaladas aquelas luzes que os paulistas chamam de farol, os cariocas de sinal e Jânio Quadros e Antonio Houaiss chamavam de semáforo.

Tenho certeza que parte dos leitores ao ler esses resmungos há de reclamar: – Mas esse cara quer o progresso de que jeito?

Fico eu, aqui, atônito, perguntando-me a quem, afinal, interessa esse tipo de progresso. E afirmo, sem saudosismo, com extrema objetividade, que, em muitos casos, o que eu quero mesmo é o regresso.

Tirem das ruas, por favor, a praga dos camelôs, tirem os carros das calçadas, acabem com os engarrafamentos, com os assaltos, com a poluição visual e do ar e com o fedor das lagoas pútridas. 

Isso feito, podem até deixar um ou outro cocô de cachorro que não troco nenhum comércio de rua pelo aglomerado sem alma e sem história dos shopping centers.

Gosto da “urbi”, da arquitetura, da mescla social sem a seleção do dinheiro, gosto dos cheiros, de todas as propostas de vida que, a toda hora, são oferecidas, na rua, ao passante mais atento ao ato de existir.

Em muitos e muitos casos, como esse, o progresso desperta a vontade do regresso. Nesse confronto entre “pro” e “re”, nessa permanente dialética do tempo, onde o atual destrói o antigo, onde o novo chega e se instala com jeito de verdade, fica, pelo menos, uma lição: sempre que possível, tente o melhor. Quase nunca é o maior.

Isso inclui minha idéia que um casal deve ter dois filhos, ou seja, participar, apenas, da reposição do estoque.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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