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O ódio que me faz bem

Meu pai contou para mim; eu vou contar para meu filho.Quando ele morrer?Ele conta para o filho dele.É assim: ninguém esquece.(Maxacali, índio da Aldeia …

Meu pai contou para mim;
eu vou contar para meu filho.
Quando ele morrer?
Ele conta para o filho dele.
É assim: ninguém esquece.
(Maxacali, índio da Aldeia Mikael, MG)

O fanatismo de segmentos muçulmanos chega ao ponto de afirmar que o Holocausto jamais aconteceu. Essa cegueira imbecil gerou uma oportuna lembrança que circula na Internet.

O general Eisenhower, supremo comandante das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial, ordenou que fosse feito um farto registro sobre o genocídio promovido pelos nazistas nos campos de concentração alemães.

Eisenhower teria assim justificado a sua preocupação: “Que se tenha o máximo de documentação – façam filmes – gravem testemunhos – porque, em algum ponto ao longo da História, algum bastardo se erguerá e dirá que isto nunca aconteceu”.

Há dois momentos patéticos na nossa história – da mesma época – que envolvem o então ditador de plantão, general João Baptista de Figueiredo, e o então coronel Job Lorena de Sant”Anna, dos quais sou testemunha ocular. Até hoje, se tivesse que dar um troféu de palhaço-mor a um deles, seria uma decisão difícil. Ambos os episódios foram presenciados na TV por uma nação que – naqueles momentos – se deu conta até onde haviam descido os seus mandatários.

O general Figueiredo não teve pudor em fazer um pronunciamento presidencial com uma roupa de jogging. O pronunciamento era pessoal e o traje, um deboche. O coronel Job foi encarregado pela ditadura de fazer o papel de palhaço. Foi para a TV dar uma explicação que todo mundo sabia ser absolutamente mentirosa sobre uma tentativa de homicídio coletivo que o acaso abortou.

Eis os fatos, descritos pelo “O Globo”, no obituário de 15 deste mês: “Job Lorena de Sant”Anna, general. Relator do inquérito policial-militar (IPM) instaurado pelo Exército para apurar o atentado a bomba no Riocentro, em 1981, o então coronel Job Lorena de Sant”Anna produziu um documento contestado numa decisão histórica pelo procurador-geral da Justiça Militar, Kleber de Carvalho Coelho, que determinou ao Comando do Exército a instalação de um novo IPM. Em parecer de 49 páginas, o procurador apontou fatos ignorados no IPM relatado pelo oficial, que inocentara o capitão Wilson Machado e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que serviam no DOI-Codi. Ambos estavam no Puma onde uma bomba explodiu. O sargento morreu e Wilson Machado ficou gravemente ferido. O IPM concluiu que o sargento e o capitão Wilson Machado foram vítimas. Mas o resto do país – incluindo o chefe do Gabinete Civil do Governo Figueiredo, o general Golbery do Couto e Silva – estava convencido do contrário. Golbery pediu demissão em 6 de agosto daquele ano. Job Lorena, que foi promovido a general, morreu ontem, no Rio, de causas não divulgadas, e será sepultado hoje no Cemitério São João Batista.

Quando o general Costa e Silva morreu e, depois, o general Geisel, Carlito Maia, meu querido amigo, publicou nos jornais de São Paulo, junto aos obituários, um pequeno anúncio: “Por uma graça recebida”.

No caso, fosse Carlito vivo, eu teria dito: Irmão, não gaste vela por um mau defunto.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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