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A eternidade

Juro que escrevi um texto sobre a travessia que minha mulher e eu fizemos no velho Chico, de uma margem de Sergipe para a …

Juro que escrevi um texto sobre a travessia que minha mulher e eu fizemos no velho Chico, de uma margem de Sergipe para a cidade de Penedo, numa margem das Alagoas. Isso foi em 1982 e eu já ia, na manhã de hoje, encaminhar minha coluna para a revisão do atento Luís Augusto Lopes, quando um sonho dessa madrugada cobrou-me duas coisas: colocá-lo no papel e jogar no bicho, especificamente no gato.

Como todo mundo sabe, sonho não é fácil de decodificar e, nesse caso, desvendar o que é pensado dentro de um sonho daria nó até nos miolos do Sigismundo Freud. (Levei sustos em Buenos Aires quando me falaram nesse Sigismundo e no Guillermo Shakespeare.)

Tentemos, pois preciso me livrar desse acontecimento noturno. Carece explicar que no sonho, às vezes, o personagem era eu mesmo, às vezes era um cidadão mais moço, mas não era o Lula. Era sonho, não pesadelo.

Nesta escrita, o personagem fica só o outro, fico de fora. Vamos lá.

Já no meio da quadra, percebeu que entrara numa rua sem saída. Como caminhava a esmo, a curiosidade levou-o a conhecer onde a rua desistia de si mesma.

A rua não acabava, ou melhor, acabava para os veículos, pois ao final da quadra transformava-se numa escadaria com uns 60 degraus e aí, sim, abaixo, a rua desistia na calçada de uma rua transversal.

Não conhecia bem o bairro, mas sentiu que essa configuração remetia a um afluente chegando ao seu destino. Ou a uma metáfora da vida, antes e depois da queda? Censurou-se por essa mania de procurar explicações e metáforas em coisas banais.

Censurou-se mais ainda por tentar classificar o banal e o essencial, pois tinha certeza que qualquer coisa, por maior que haja sido, colocada dentro da História perde status e pode, até, acabar banal.

Ainda menino, contraíra o hábito de procurar semelhanças ou explicações na arquitetura das nuvens em movimento. Essa dificuldade de achar que nuvem é só nuvem e que uma rua é uma rua tinha suas vantagens, pois, às vezes, descobertas inventadas ajudavam no trato das coisas não-tangíveis.

Satisfeito em saber do destino da rua, começou a caminhada de volta, pela calçada oposta à qual viera. À frente de um casarão, uma grande árvore, amendoeira talvez, com grande copa, deixava um raio de sol, como um spot de teatro, chegar ao chão de terra, formando um círculo com uns 20 centímetros de raio.

Era outono, céu azul sem nuvens, quase onze horas, e a temperatura oscilava em torno dos 18 graus. Um gato cinza, dormitando no raio de sol, armazenando aquele calor, mais o chão de terra, a árvore, o verde das folhagens, o azul do céu, aquele conjunto diante dos seus olhos, dava ciência que aquilo mesmo poderia acontecer mil anos depois. Ou já acontecera mil anos antes.

Uma sensação estranha na região do estômago aconteceu ao imaginar que poderia estar passando defronte à Eternidade.

Como a repetição e a reciclagem permanente de fatos atravessam o tempo,   pensou que se naquele momento escrevesse um bilhete, um carteiro intemporal  poderia entregá-lo a um passante como ele, 700, 12 mil anos depois. Esse carteiro, se atrevido, entregaria um papiro para Cleópatra, a qual reuniria seus sábios na biblioteca de Alexandria para que estudassem, junto com ela, o que é a Eternidade. E as pirâmides sorririam entre si, pois se sabiam dentro do tema….

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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