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Trocando vontade por oportunidade

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto, Digo…”Mário Quintana Estava com vontade de continuar a registrar o meu périplo por hotéis e cidades, …

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto, Digo…”
Mário Quintana

Estava com vontade de continuar a registrar o meu périplo por hotéis e cidades, quando a votação para as sete novas maravilhas do mundo obrigou-me a escrever sobre não votar no Cristo envergonhado, face ao crime organizado que sitiou o Rio de Janeiro.

Minha recusa ética de dar um voto que, vitorioso, pode atrair turistas para este alçapão do crime, gerou uma avalanche de e-mails. Como foram todos de apoio e de desabafo, parece que toquei num assunto que estava engasgado na garganta de muita gente, o que me dá a certeza que fui oportuno.

Dia desses, espero, ainda contarei a minha travessia do Rio São Francisco, num trecho limite de Sergipe para Alagoas e a alegria de acrescentar mais uma cidade – Penedo, fundada em 1612 – às muitas cidades mais antigas do Brasil que conheço, desde São Vicente, a primeira a ser colonizada, em 1530.

Por outro lado, fui lembrado, por um caderno literário, que Fernando Sabino definiu a crônica como tudo que a gente chama de crônica, o que me dá o aval para  navegar em águas doces, salgadas e até nas areias do Saara. Se eu disser que é crônica, o leitor que engula. Ou fuja rápido.

Uma matéria num caderno feminino fez-me tão bem que não consigo ficar imune a contar, para quem não sabe, que a juventude japonesa inventou uma moda contra o modismo. Isso mesmo, a juventude daquele arquipélago fanático por fotografia, decidiu criar e não imitar, numa verdadeira recusa a ser mais um  “soldado” de uma tribo “fardada”.

Coisa mais que gratificante foi ver, no jornal, diversas fotos de jovens vestidos de forma personalizada, ou seja, vale tudo, menos vestir-se igual a outro. Um gesto impensável nas épocas da mini-saia e me perdoem, naquela coisa horrorosa e quase sempre suja dos hippies. Para mim, esses modismos têm um carimbo quase visível: “Não sou um, sou apenas mais um”.

Conto aqui meu primeiro susto, assim que entrei no universo dos leitores de jornais e revistas, quanto à publicação de dietas para emagrecer. Como sempre, apegado à lógica, imaginei aqueles gigantes do basquete morrendo à míngua de nutrientes. Em compensação, a maioria das pessoas com menos de 1,55m iria, no mínimo, continuar obesa.  

O susto foi maior quando li esse absurdo, “a cor desse verão é o amarelo”.  Meio que distraído, perguntei-me: será que avisaram o verão?

A gravata, frescura atribuída a Luís XIV, o Rei-Sol, há muitos séculos subjuga os homens, sem que alguém expresse uma justificativa decente para essa inércia de comportamento. Na sede social do Jóquei Clube carioca, o porteiro do restaurante tem um estoque de gravatas para que ninguém almoce lá sem o indispensável complemento. O “traje social completo” é um aviso para você não ser inconveniente e  aparecer desgravatado e, pior, calçado com tênis. Estas convenções fazem a gente acreditar, por momentos, na fantasia que se vive numa democracia onde todos podem se vestir igual. Mas essa ditadura do costume (nos dois sentidos) desmente o espírito democrático e aponta em outra direção.

Durante décadas, a profissão me vestiu dos pés à cabeça, deixando-me só a liberdade das cuecas ou sungas, ou nada.  Quando alguém me jogava confete com aquela frase conhecida, “que elegância”, ouvia o meu bordão:

– Farda de executivo.

Amador Aguiar, o fundador do Bradesco, já milionário, alegando alergia, nunca mais vestiu meias. Se eu fosse milionário, como o Braguinha – Antonio Carlos da Almeida Braga – também participaria, como ele no passado, das reuniões do Bradesco de camisa esporte.

A última novidade na moda masculina é fechar o paletó numa casa acima, ou seja, enclausurar melhor a vítima deste país tropical. Acho uma graça os   profissionais do telejornalismo serem os modelos desse merchandising não remunerado.  

Do Rio São Francisco para o Japão, o cronista viajou por assuntos vários e, estribado em Sabino,  pode afirmar: missão cumprida.  E reafirma que gostou muito mesmo dessa reação sadia da juventude japonesa, ele que já escreveu:

Toda vez que vejo mais uma pessoa com tatuagem, minha esperança de ser a única exceção aumenta.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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