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Hotéis & Noite de Núpcias

Rio Ary Carvalho, então diretor da Última Hora gaúcha, em 1963, pediu-me que viesse ao Rio fazer um contato com Grande Otelo. Era véspera …

Rio

Ary Carvalho, então diretor da Última Hora gaúcha, em 1963, pediu-me que viesse ao Rio fazer um contato com Grande Otelo.

Era véspera de Carnaval e vim meio desconfiado que teria que arranjar uma mulher para não dormir na rua.

Cheguei no Aeroporto e havia um balcão para turistas, do Touring. 

Para surpresa minha, havia um hotel do qual nunca ouvira falar, o Toledo, na Domingos Ferreira, em Copacabana, e tinha vaga. Perguntaram se eu queria apartamento de solteiro ou de casal. Como eu estava só, optei pelo de solteiro.

Subi, percebi que era um antigo edifício residencial adaptado e que me coubera um quarto de empregada, onde o armário era uma cadeira.

Troquei para o de casal, mas depois do banho, ao sair, perguntei:

– Qual é o sistema da casa? O hóspede põe a bagagem no corredor e dorme no apartamento ou vice-versa?

***

Nunca me hospedei no Hotel Martinica, na Rua Sá Ferreira, Copacabana, defronte à Gôndola, restaurante que, durante décadas, reuniu o pessoal de teatro e jornalistas.

Foi lá que conheci Roniquito, figura lendária da Zona Sul, capítulo do meu livro sobre o Antonio”s e que ganhou, há pouco, biografia escrita por sua irmã, Scarlet Moon. Mas essa é outra história.

O Martinica era de alta rotatividade – mas para pedestres – e um dia a Gôndola ganhou permissão para colocar mesas na calçada.

Assim que vi a novidade, disse aos amigos que esse fato enterraria o negócio do hotel, pois a entrada e a saída dos casais ficavam expostas à curiosidade pública.

Um gênio derrubou meu vaticínio. Ao final da tarde, um grande caminhão estacionava na frente do hotel e, funcionando como tapume, protegia o entra-e-sai da clientela.

Salvador

Áurea – minha mulher – e eu, em 1982  fomos ao cartório, nos casamos e à noite, viajamos.

A primeira escala, a da noite de núpcias, aconteceu no Meridien de Salvador. Depois de uma intensa jornada que tivera início muito cedo; mais um desrespeito total do cartório quanto ao horário; cuscuz paulista para os amigos mais chegados; aeroporto e avião, o jantar francês no Meridien, com intervalos seculares entre um prato e outro, nos permitia cochilos reparadores. Terminados a ceia e o champagne, fomos diretos para a cama e dormimos, logo após saber, por telefone, que Rachel, quatro anos, e Carla, dois, nossas filhas, já estavam sonhando.

***

Montei a filial da Standard Propaganda em Salvador e hospedei-me algumas vezes no Hotel da Bahia onde, fim de tarde, fiz muitas reuniões de negócios à beira da piscina, tomando uísque com água de coco. Foi lá que, antes, já inventara um coquetel para a Viação Itapemirim e – suprema glória – levei Chico Buarque para cantar apenas três músicas. Mas foi no Hotel da Barra que minha mulher testemunhou, ao vivo, a minha memória sobrenatural, inclusive a memória auditiva. A gente estava jantando e, em dado momento, eu disse para ela:

– Quem está falando na mesa atrás de mim é o Rodney, meu companheiro de basquete há mais de 30 anos e que nunca mais eu vi. Virei-me, levantei-me e – suprema glória – gritei:

– Rodney!

– Mario!

Inté.

Em tempo: eu jogava bola ao cesto que, ainda, não era basquete. Quanto à memória, é a maior acusação que meus inimigos fazem a meu respeito.

Autor

Mario de Almeida

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