Anedota Búlgara
Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade
(Carlos Drummond de Andrade)
Antes de viajar para Londres, reli “Cartas de viagem e outras crônicas”, de Campos de Carvalho, edição da José Olympio Editora (2006), então já propriedade da Editora Record.
O lançamento do livro e de outros títulos de sua autoria, no mesmo ano em que Aderbal Freire Jr. levou para o palco, no Teatro Poeira, do Rio, a adaptação da obra-prima de Campos de Carvalho, O Púcaro Búlgaro, recoloca na cena literária o nome desse surpreendente escritor que se esqueceu de continuar escrevendo.
A feliz adaptação e encenação da obra publicada em 1964 joga com a lógica formal para provar a existência da Bulgária, algo duvidoso, não para a Geografia, mas para a trajetória existencial. A Bulgária, no caso, pode ser o trajeto para o nada.
Bárbara Heliodoro, a mais severa crítica teatral do Rio, considerou a encenação do Poeira, o teatro-sonho realizado pelas atrizes Andréa Beltrão e Marieta Severo, o melhor espetáculo de 2006, opinião com a qual concordo em relação a todos a que assisti.
Walter Campos de Carvalho, mineiro de Uberaba, MG (1916), morreu em São Paulo (1998), onde se aposentara como Procurador do Estado. Viveu, ainda, em Petrópolis e Rio, tendo sido dos mais brilhantes colunistas do Pasquim. Colaborou, também, no Estado de São Paulo e as cartas e crônicas agora em livro são parte de dez anos de presença nesses veículos.
De humor raro, onde a surpresa é elemento permanente, é receita certa para quem está de mau humor.
Cartas de Londres, Paris e crônicas reunidas num pequeno volume arrancam grandes gargalhadas e colocam a gente no espaço dos inteligentes. Vai aí uma amostra gratuita, uma carta de Londres em 1972.
“Londres, novembro de 1972.
Meu caro.
Se Lisboa logo à primeira vista parece tipicamente lisboeta, Londres, então, é você vê-la e exclamar: “Isto sim é uma cidade londrina!”
Tive sorte em enxergá-la logo no segundo dia, pois tenho um amigo que ficou aqui três semanas e só conseguiu ver neblina, neblina, neblina: acabou indo ao oculista pensando que estava com catarata. Aliás, diga-se a meu favor que tenho carregado o SOL comigo por tudo quanto é lugar por onde passe: dos 70 dias que fiquei em Paris, Paris me ficou devendo exatamente 65 dias de sol: recorde absoluto. Um frio de rachar – mas sol.
Na véspera de vir para Londres comprei um livrinho desses de bolso cujo título me pareceu sugestivo: Comece a falar inglês hoje mesmo. De fato, já no dia seguinte eu falava o inglês corretamente, só que os ingleses aqui pareciam não entender muito bem, como ainda continuam não entendendo: em compensação diga-se que eu os entendo ainda muito menos. Tenho procurado usar a mímica dos dedos como fazem os mudos, mas o frio é tanto que meus dedos ficam enregelados e só consigo me expressar em poucas palavras – o suficiente para não morrer de fome. (O curioso é que sempre li o inglês, conheci no original Byron, Shakespeare, Wilder, Thoreau, Walter Patter, Virginia Woolf, Shaw, Poe e tantos outros – e mesmo aqui compro o Sunday Mirror e leio-o de fio a pavio, resolvendo até as palavras cruzadas: na hora de pedir água no restaurante é que são elas – invariavelmente me trazem uma torta de qualquer coisa.)
Os táxis em Londres têm, todos, cara de popô de mulher velha. Pertencem ao Serviço do Patrimônio Histórico e só saem à rua mais como atração turística – embora você possa entrar neles e ir de um lugar para outro, pagando naturalmente o preço da viagem. O trânsito, como se sabe, é aqui invertido, vai-se pela esquerda e volta-se pela direita – e o chofer guia junto à porta da direita, que ele não é besta nem nada. Já fui atropelado três vezes. Os ônibus têm dois andares mas parecem ter 20, e seu equilíbrio é tão instável quanto a atual situação política argentina: acho que exagero um pouco. Metrô aqui é underground: acabou-se aquela mamata de Lisboa, Madri, Barcelona, Paris. Por enquanto ainda estou só farejando; isso de underground me lembra literatura underground que nem a minha, o que é sempre perigoso.
As paredes em Londres realmente falam e gemem à noite, pelo menos as do hotel onde estou. Você está tranqüilamente lendo o seu jornal quando dão três batidinhas ao lado da sua cama, tenha porta ou não tenha porta – e depois das batidinhas vêm uns estalinhos que tanto parecem beijos como tampas de esquifes se abrindo, acompanhados de sussurros quase imperceptíveis e vozes que mais parecem vozes de baratas ou de aranhas.”
Inté.
Serviço:
Outras quatro obras de Campos Carvalho relançadas pela José Olympio: A lua vem da Ásia, A vaca sutil, A chuva imóvel e O púcaro búlgaro.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial