Senhoras e senhores:
Irei passar e passear umas semanas per aí.
Para não ter que pedir licença ao nosso editor Vieira da Cunha, vou apropriar-me de textos meus e preencher algumas segundas-feiras.
Hoje, aproprio-me de uma novela de minha autoria, ainda não publicada e que será o “Diário de uma amnésia Eu não me chamo Roberto”. Se alguém achar que é propaganda antecipada, o autor é publicitário. Se achar que o colunista é folgado, pode contar com a solidariedade dele.
Mais que nunca, inté.
Diário – 47
“… Por ironia, deveria escrever aqui e agora: estou bom. Acabo de reler essas páginas todas e mais uma vez percebo que tenho evitado colocar no papel meus piores momentos de lucidez, meus momentos onde o que sou hoje sofre como qualquer pessoa sofre, doente ou não. Fiquei na dúvida sobre se essa desonestidade é minha, só dos desonestos, ou se é da condição humana. Apesar de não me lembrar quem sou, meu passado só está apagado nos canais mais fortes, onde a doença tem medo de se arriscar a perder o doente. Coisas de minha vivência, sempre que estou absorto num assunto, surgem na cabeça da mesma forma que qualquer coisa acontecida agora, como, por exemplo, as mãos que lavei há pouco. E comecei a refletir se faz parte de nossa condição o não-querer pensar coisas negativas. Pergunto a mim mesmo se na rua, quando a gente vê uma pessoa sozinha abanar a cabeça, se ela não está expulsando o que não quer pensar. Acho que essas pessoas começaram a falar quando se cansaram de gesticular e abanar as cabeças…”
S/N
“… sou um palhaço no espelho. Rio de mim mesmo. Acontecem pensamentos por conta própria… por conta deles mesmo e, alguns, muito engraçados, arrancam-me, no mínimo, sorrisos. Acho que pensamento é uma coisa absolutamente livre, não dá para controlar. A gente pensa o que quer, ordena um assunto e a cabeça gira nessa órbita comandada. Mas acontece, também, a hora do recreio, aquela hora em que o pensamento se desprega de você e voa, igual a balãozinho em festa de criança. Daí ele é ele mesmo, livre, solto, sem dono e, então, se autopensam coisas que ninguém mandou ele pensar. Claro que a liberdade de pensamento não é isso, isso é a liberdade do pensamento… pronto, lá vai ele querendo que eu ria, mas hoje estou sério e nada de ir para o espelho… que o pensamento se divirta sozinho…”
“… pensamento solto não tem dono nem chefe, voa para o lado que o vento sopra e quem sopra o vento é ele mesmo… Não é que, meio boquiaberto, fiquei assistindo a um pensamento meu? Não sei o motivo, mas o pensamento desandou para o lado dos profetas e das profecias… Ora, se é difícil adivinhar o quem vem, é muito fácil contar o que foi… Pronto, surgiu a idéia que a história já aconteceu, não importa se finita ou infinita… importa é que a gente não está mais vivendo… já viveu… isso que a gente pensa que está vivendo não é mais a vida, é uma leitura da vida que já aconteceu… a arrumadeira bunduda bateu na porta, foi entrando com um monte de roupas e interrompeu um monte de idéias…”
“… tomei um café, dei uma pequena caminhada pensando nos pensamentos soltos… agora eu é quem mandava o pensamento pensar o que eu queria que ele pensasse… senti que eu estava meio ansioso para voltar à mesa e continuar a rabiscar as coisas que o pensamento pensara sozinho, antes da arrumadeira interromper… tomei outro cafezinho, com o som de uma TV aporrinhando ouvidos e idéias e, mesmo sem esvaziar a xícara, fui para o quarto, à cata do papel e da caneta… Se eu estou, agora, lendo a história que eu já vivi, como se ela estivesse toda escrita num imenso mural, o que são os profetas senão pessoas que têm o dom de ler muito depressa e já lêem, hoje, o que aconteceu no amanhã de verdade, no amanhã que já aconteceu? E quando o profeta não profetiza certo? Ou lê muito depressa e atropela as palavras, ou traduz errado, falta de domínio do idioma?… Levantei, fui para o espelho e fiquei olhando muito sério para o palhaço lá refletido…

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