Ao sair do hotel, na Lexington Street, no fim da tarde, Nestor resolveu cortar caminho para ir à 5ª Avenida. Entrou pela porta dos fundos do centenário Waldorf-Astoria e lembrou-se, ao ouvir os primeiros acordes, que nos dias úteis, no lobby do hotel e no mezanino, acontecia um animado happy hour, com direito a som instrumental, ao vivo.
A qualidade da música e todos os detalhes de classe que fazem do Waldorf o ícone hoteleiro da cidade fizeram com que ele decidisse oferecer-se um whisky. Quando se dirigia para lá, viu o tampo de uma mesinha, em seguida um martini com uma azeitona e, em terceiro, já pálido e meio com tremores, reconheceu uma inesquecível cabeleira quase loira. Como a mulher, sozinha na mesa, estivesse de costas para ele, parou e procurou um ângulo lateral que lhe desse a certeza que havia reencontrado a falsa Regina Pádua Ramos ou a verdadeira Paula Diniz. Havia.
Aproximou-se e, ainda pelas costas, perguntou:
– Dona Regina, posso sentar-me?
Diferentemente do que Nestor supunha, nada de susto ou grande surpresa:
– Não é que eu pensava que você fosse um tímido total? Ora, ora, o poderoso jornalista Nestor na Big Apple, quem diria… Sente-se, é claro.
Ainda atordoado pela simpatia da acolhida, Nestor puxou a cadeira, sentou-se e ia falar, mas…
– Antes que você faça perguntas, eu dou as respostas, se tudo for off the records, é claro. Conto com a sua ética.
– Claro, claro…
– A Paula Diniz ganhou um habeas, saiu da prisão e aguarda julgamento. Enquanto isso, Regina Pádua Ramos, a clone e segunda identidade dela, acha mais seguro ausentar-se do Brasil e toma um martini no Waldorf… E você, trabalho ou passeio?
Pedindo um Johnnie Walker black label on the rocks ao garçom que chegara, respondeu:
– Passeio e trabalho, ou vice-versa. Vim como convidado para uma reunião de editores de jornais dos States, que já houve, mas tirei uma semana para museus e Broadway. Fazia tempo que não vinha aqui, estou me reciclando.
– Lugar-comum, mas verdadeiro, é o tamanho da coincidência…
– Regina, ou melhor, Paula…
– Regina.
– … de tudo o que houve, só não entendi mesmo aquele negócio de você estar dirigindo um carro roubado.
Uma risada franca, alta, quase uma gargalhada, descontraiu Nestor de vez.
– Que roubado nada, era uma armação que a gente estava preparando e eu vacilei saindo com o carro. O dono é um camarada com quem faço negócios, ou melhor, fazia. Minha atividade no Brasil acabou… Como meu pai sempre pensou que meu negócio fosse o mercado de capitais, agora vivo de rendas… Minha distração é a Bolsa de Valores, daqui, é claro.
– Mas Paula, como…?
– Regina. Passaporte e visto, agora sou Regina e ponto final.
– Mas como…?
– Barato, muito barato! 500 mil reais, um passeio até o Paraguai, passaporte e visto em mãos…
– E quais são os planos?
– Pessoas como eu não têm planos, as que têm se dão mal. Minha vida tem sempre a mesma data: hoje.
– E o que você vai fazer hoje?
A risada não podia ser mais gostosa.
– É um convite?
– É
– Você decide.
A resposta incisiva e imprevista deixou Nestor meio que aturdido.
O riso era uma provocação só.
– Então, você convida, mas não sabe para quê?
– Sua resposta foi tão rápida que nem deu para pensar em alguma coisa.
Paula mostrou a chave com o número do seu apartamento e acrescentou:
– Estou hospedada aqui mesmo. Vou subir. Você paga a despesa, sobe e a gente resolve o que fazer.
]Enquanto Paula caminhava, Nestor, fascinado, dizia para si mesmo que aquele balanço das ancas era uma tentação forte demais. Suspirou, chamou o garçom, pagou a despesa com uma única nota, não esperou o troco, pegou o elevador, desceu no quinto andar e quando viu que a porta estava apenas encostada, uma palavra explodiu na sua cabeça:
Maktub!

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial