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A estranha – II

Regina Pádua Ramos. Aquele nome e aquele raro exemplar de fêmea não me saiam da cabeça. Era a milésima vez que eu acusava minha …

Regina Pádua Ramos.

Aquele nome e aquele raro exemplar de fêmea não me saiam da cabeça.

Era a milésima vez que eu acusava minha timidez de bloquear palavras e gestos oportunos. Só que, agora, eu acusava a minha timidez como se ela fosse uma instituição à parte, fora de mim. E havia um ódio secular nessa acusação, do mesmo tamanho da compulsão de descobrir a maneira de reencontrar aquela mulher.

Há oito dias que o duelo não cessava, minha obsessão desviava-se da timidez e tentava descobrir possibilidades de um reencontro.

Meus 38 anos jamais haviam conhecido algo parecido ou mesmo  próximo do choque que aquele episódio me provocara.

Eu não era virgem de afetos e de algumas combustões amorosas, mas nada me perturbara de forma tão explosiva. Eu estava sacudido por um terremoto tão inédito quanto insólito. Habitava-me um vulcão que jamais supusera.  Qualquer vulto na rua com um mínimo de semelhança com aquela criatura punha-me em sobressalto. Passei a ser um quase sonâmbulo, mas em vigília total.

Obriguei-me a raciocinar. Buscas no catálogo telefônico e na Internet descartaram os caminhos óbvios. 

Ela se disse escritora, mas não descobri nada de sua autoria. Era desconhecida ou se escondia num pseudônimo.

Dissera estar em meio a uma pesquisa. Quando entrou no bar eram pouco mais de seis da tarde e, ainda de acordo com ela, já fizera oito pesquisas.

O local onde tudo acontecera é um dos melhores do tipo americano, na Zona Sul da cidade. Bar de categoria, freqüentado no fim do dia por empresários e executivos, inclusive por donas do seu próprio nariz.

Acho que esse deve ser o universo pesquisado pela dona dos meus demônios.  Resolvi ir lá, conversar com o garçom que, mesmo sem nenhuma intimidade, me conhece e sabe quem sou.

Cheguei, sentei-me na mesma mesa da vez anterior e, ao ser atendido, expus meu interesse quanto àquela  senhora e perguntei sobre o que a levara a conversar com ele. Inútil, ele, face à minha insistência, lembrou-se que ela disse, apenas, para evitar estranheza quanto à sua atitude, o que explicara para mim.

Quanto ao ocupante da outra mesa, a quem ela se referira como Milton, ele não conhecia e achava que ele estivera lá pela primeira vez.

Venci a timidez, passei ao garçom – André o seu nome – dois cartões de visita e pedi que se ela aparecesse por lá, para ele telefonar de imediato para o meu celular. Caso houvesse alguma dificuldade, que passasse meu cartão para ela, falando em urgência.

Ao pagar meu uísque dei uma gorjeta inusitada. André percebeu que o assunto era sério.

Três dias e sem nada acontecer, comecei, na segunda-feira, a executar o plano B. Às quatro da tarde, trocava o jornal pela ronda dos bares de categoria na Zona Sul. Às 6 da tarde, desanimado e enjoado com tanta água mineral, voltava para a redação e continuava o trabalho. 

Aconteceu na quinta feira, no primeiro bar que entrei em Ipanema. Ainda não eram 5 horas e ela estava sentada com um senhor idoso, com quem conversava e fazia anotações. Sentei-me numa mesa distante, pedi um uísque puro e, menos de 15 minutos depois, ela levantou-se, deu a mão para o senhor e encaminhou-se para o balcão.

Cheguei ao balcão antes dela e  abordei-a  assim que ela se aproximou:

– Meu nome é Nestor Azevedo, jornalista e diretor do Clarim. A senhora sentou-se em minha mesa, semana passada, no bar do Jóquei e, na saída…

– Lembro-me de tudo, o senhor me perdoe, usei-o como pretexto para a outra abordagem, a que de fato me interessava…

– Não entendo…

– Não posso explicar… trata-se de um trabalho em fase sigilosa. Aquele nome que lhe dei, não existe, foi invenção, na verdade sou delegada da Polícia Federal…

– Então…

– Desculpe-me, esqueça tudo. É melhor para nós…

Enquanto ela ganhava a rua em passos decididos eu, chocado e arrasado, também me decidi…

– Garçom, um uísque duplo…

Autor

Mario de Almeida

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