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A estranha

Era quase loira, quase alta, e deveria ter uns quase 35 anos. Bonita, dessas pessoas que evidenciam uma personalidade muito forte, de aparência dominadora. …

Era quase loira, quase alta, e deveria ter uns quase 35 anos. Bonita, dessas pessoas que evidenciam uma personalidade muito forte, de aparência dominadora.

Atravessou os largos umbrais da entrada do bar, olhou as mesas – eram 11 – como se à procura de alguém, voltou a olhar com mais atenção e eu acompanhei o seu olhar. Todas as mesas estavam ocupadas e só uma, além da minha, tinha um único ocupante.

De repente, como se houvesse me encontrado, encaminhou-se para a minha mesa em passos resolutos, sentou-se calada, colocou a pequena bolsa marrom sobre a mesa e, sem mesmo olhar para mim, num gesto econômico, quase invisível, fez sinal para o garçom.

Este, pressuroso, mas sem subserviência ou perda do ar de eficiência, chegou e, mudo, apenas com pequena mesura, colocou-se à disposição. Apesar da voz baixa, deu para perceber que a desconhecida pedira um martini, mas a última palavra, depois de uma pausa, inaudível, deixou-me curioso.

Eu ia balbuciar qualquer coisa, mas o olhar glacial, um rápido olhar em minha direção, cortante como deve ser a lâmina de uma guilhotina, fechou-me a boca.

Algo funcionou fora de hora e levantei-me para urinar. Sem pedir licença ou qualquer gesto de urbanidade, levantei-me e dirigi-me à porta onde um sóbrio letreiro avisava ser para cavalheiros.

Enquanto urinava, pensei no inusitado da situação e, ao mesmo tempo, naquela presença perturbadora que, além de autoridade, exalava uma provocação sexual que parecia já vir com uma etiqueta de coisa proibida.

Ao lavar as mãos, percebi que a água, escorrendo entre os dedos, sugeria que eu fosse atrevido e não deixasse ir para o ralo uma oportunidade de decifrar um mistério passageiro e – quem sabe? – ser gratificado com grandes emoções e prazeres.

Ao sair do sanitário, percebi que meus pés batiam mais firme no piso de luxo e que eu estava me decidindo por uma ação, inda que rara, corajosa.

Minha tradicional timidez estava prestes a ser vencida pela oportunidade de participar de uma aventura inédita. E – quem sabe? – ser o protagonista de uma história mágica.

Voltei à mesa e uma azeitona no martini informou-me que a palavra não ouvida era “seco”. Pensei que aquela mulher e um martini doce seriam um desacerto, pois cereja e álcool não combinavam com aquela personalidade muito forte.

Ela não tinha nada de masculino, mas sua agressiva feminilidade não permitia equívocos, certamente era ela quem escolhia seus pares.

Enquanto minha timidez selecionava uma forma eficiente de abordagem, ela, com um palito, levou a azeitona à boca e pude reparar que seus lábios, carnudos e de lindos contornos, eram tão perturbadores quanto a sua dona.

Num impulso rápido, assim como quem toma uma decisão, a desconhecida terminou o martini num só gole, pegou a pequena bolsa, levantou-se e caminhou. Tudo isso sem me gratificar com um único olhar. Dirige-se ao garçom e imagino que ela vai pagar a despesa e retirar-se, deixando-me na boca a trava amarga de não haver tentado a abordagem.

Para minha surpresa, ela diz algumas palavras ao garçom e, também com  passos resolutos, dirige-se à outra mesa com um único ocupante, um rapaz aparentemente alto e de cabelos castanhos escuros.

A cena praticamente se repete: bolsa ao lado, sinal para o garçom e, quase em seguida, outro martini seco. Como ela não se dignasse a olhar-me, pude ficar, ainda mais intrigado, a observar a mesa próxima onde ela se sentara.

Assisti então, incrédulo, ao início de uma conversação quase aos sussurros.

Por mais que eu tentasse, não conseguia extrair uma explicação plausível para o que acontecia.

Para aumentar ainda mais a minha angústia, o rapaz chamou o garçom, entregou duas cédulas, não esperou o troco, puxou a cadeira para ela levantar-se e ambos caminharam para a porta.

Por extrema felicidade, eu estava entre eles e a porta. Não suportei a idéia de tudo desvanecer-se sem uma explicação, levantei-me e fiquei no caminho. Ela vinha na frente, parou diante de mim e nem me deu tempo para balbuciar alguma palavra.

– Meu nome é Regina Pádua Ramos, sou escritora e estou escrevendo um livro sobre comportamento humano. Trabalho, no momento, numa pesquisa sobre diferentes reações masculinas diante de circunstâncias estranhas. Desculpe-me, mas agi de maneira a estudar sua reação que, me parece, foi de total timidez. O senhor foi minha nona pesquisa de hoje e o Milton aqui é minha décima e última. Muito obrigado e passe bem.

Ela deu-me as costas e saiu caminhando. Ainda aturdido, segurei o braço do rapaz e perguntei:

– E para onde vocês vão agora?

– Para onde ela quiser, é claro.

Autor

Mario de Almeida

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