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Insônia/sônia

Estava com a chave na mão, mas não via porta alguma à sua frente. Olhou ao redor e, além do jardim, mais nada. Um …

Estava com a chave na mão, mas não via porta alguma à sua frente. Olhou ao redor e, além do jardim, mais nada. Um cão começou a latir e, mesmo sem o ver, gritou: cala a boca! Agora, latindo de forma assustadora, o cão surgiu e pulou na sua barriga. Mostrando muita agilidade, agarrou o cão e, com extrema perícia, mordeu-lhe o rabo. Enquanto o cão fugia ganindo, tirou da boca um pedaço do rabo, jogou-o fora e, com um lenço vermelho, limpou o sangue da boca. Percebendo que a chave caíra de sua mão, abaixou-se resmungando e iniciou a procura, mesmo sabendo que não sabia para qual porta ela serviria. Ainda resmungando, desistiu da procura, achando que a imensa lua cheia estava derramando um sorriso sarcástico sobre a sua cabeça. 

Abriu os olhos, e o relógio sobre a mesinha de cabeceira informou: seis minutos para seis. Ficou admirado, pois dormindo menos de trinta minutos, conseguira fabricar um sonho tão estranho quanto absurdo. Passou a mão sobre os lábios e, vendo que não havia sangue, acordou de vez.

Levantou-se, foi à porta, pegou o jornal e, logo nas manchetes, percebeu que insônia e sonho estavam no mesmo nível das notícias. Ou vice-versa.

Ligou o rádio e notou, de imediato, que estava no horário da programação eleitoral. Entre uma blasfêmia e um palavrão, desligou o rádio e foi ferver água para o café. Mesmo fora dos hábitos, ligou a TV para esperar a água ferver e descobrir se, de manhã, haveria vida inteligente na programação. Também horário eleitoral (!) e um cara, com o tipo lambrosiano de assassino, prometia acabar com a violência. Não encontrou o palavrão adequado e, desligando o aparelho, conformou-se com duas blasfêmias.

Enquanto preparava o café bem forte, pensava se não seria melhor voltar para a cama na tentativa de vencer a insônia. Jogou o café fora e aproveitou o resto da água quente para fazer um chá de camomila. Tomou-o e, ainda sentado, lembrou-se de um livro que ganhara e que, supunha, não tinha nada a ver com o surrealismo do seu sonho ou bobagens inconseqüentes. Sorriu ao lembrar-se que se contasse o sonho para a empregada, ela iria correndo para o bicheiro jogar no grupo 5, o do cachorro.

Abriu o livro* a esmo: (…) “O sujeito mais rápido do mundo não é o campeão olímpico dos cem metros rasos: é o francês de qualquer sexo, cor, idade. Você entra junto com um francês de 80 anos numa mercearia – você para comprar uma lata de sardinhas, ele para comprar ovos, pão, presunto, queijo, açúcar, leite, salsicha, alface, maionese, rapadura (rapadura, não). Enquanto o dono embrulha a sua lata de sardinha, o francês já chegou em casa, já comeu, já tirou a sesta, já arrotou e p… dez vezes e ainda encontrou tempo de chegar à janela para ver você voltando do armazém. No metrô, a qualquer hora, ele passa por você como um raio – não dá nem para saber se é homem ou se é mulher –, não utiliza nunca a escada rolante para não perder tempo, e ainda olha assustado para você que está apenas a 80 quilômetros…”

Abre em outra página e lê: “Londres, pode escrever, é a cidade mais limpa do mundo: até os lixeiros aqui são impecavelmente limpos. Se você joga um pedaço de papel na rua, logo vem o guarda e o admoesta num perfeito inglês de Oxford; depois vêm os repórteres de tudo quanto é jornal e da televisão para entrevistá-lo e saber a que tribo selvagem você pertence; e depois, finalmente, vem o Exército da Salvação e se põe a entoar cânticos pela redenção da sua alma. Antes de sair de casa, já cuspo 20 vezes seguidas por medida de precaução – e se me acontece ficar com um pedaço de papel na mão em plena rua, entro simplesmente na primeira agência do Correio e despacho-o para uma das ilhas Malvinas, com o selo da rainha e tudo…”

Fechou o livro, levantou-se e sentiu que aquele dia, mal-iniciado, começava a tomar novos rumos. Colocou um Vivaldi no som, encheu de novo a xícara de chá e ficou pensando que Campos de Carvalho, de quem, há muito, lera alguns livros, furtou a literatura por tudo que não escreveu. No caso, décadas de silêncio que – passadas –  concluiu ele, são vácuos, apenas vácuos. 

O sabor da camomila passando através dos lábios que, em sonho, se sujara com sangue de rabo de cachorro, lembrou-lhe a noite de insônia. 

Baixou o volume do Vivaldi, deitou-se, aconchegou-se debaixo das cobertas e começou, só com a mente, a reger um concerto imaginário.

O dia que esperasse, decidiu.

Dormiu.

Sonhou? Talvez.

* “Cartas de viagem e outras crônicas”,  Campos de Carvalho, José Olympio Editora – 2006

Autor

Mario de Almeida

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