Alegria, alegria.
“Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento,
No sol de quase dezembro
Eu vou…
O sol se reparte em crinas
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou …
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou …
Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou … por que não, por que não?
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço, sem documento, eu vou
Eu tomo uma Coca-Cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou …
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil
Ela não sabe, até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou …
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou … por que não, por que não”
(Caetano Veloso)
Imperdível para quem, cara pálida?
Já há algum tempo, entrou em moda, na área de artes cênicas, shows, filmes artes plásticas e livros, a indicação do tal do “imperdível”.
Eu não me perdoaria de perder o documentário “O Sol Caminhando contra o vento”, em precária exibição no Rio, em poucos cinemas e horários. Mas, para minha “alegria, alegria”, não perdi.
Não gosto de modismo nenhum e não vou abrir exceção, mesmo porque seria exagero colocá-lo na categoria de imperdível. “O Sol” interessa às pessoas de qualquer idade que se interessam pela nossa história política dos anos de 1960 para cá, contada a partir da criação do jornal Sol. E isso não é todo mundo, ainda que tenha o próprio motivo do filme – a Imprensa – e muita coisa sobre música popular e cinema do período. Por falar em cinema, meus olhos de espectador comum não se detiveram no documentário como cinema. O material é tão rico que se fosse um caleidoscópio com áudio já me caberia como imperdível.
Vivo procurando no nosso passado iluminações para o meu presente e deixo aqui um recado para os jovens: todos os protagonistas desse “caminhando contra o vento”são pessoas que, vivendo os anos de chumbo, valorizaram suas atividades, inclusive na luta pela liberdade e ficaram de bem com a vida.
Quanto a este espectador, esse reencontro com um passado carioca e brasileiro reavivou momentos e, principalmente, convívios inesquecíveis. A vantagem desses reencontros é que a gente recebe um pacote sem dor de ouvido, dente ou cotovelo e, no caso, sem as dores dos exílios, mortes, prisões e torturas de gente amada. Quando bate a saudade, ela é doce, até parece um pedido de prorrogação da vida.
O documentário também viaja para o exterior e registra os movimentos estudantis em Paris e os pacifistas nos Estados Unidos, que marcaram História, em 1968, assim como – na contramão – o nosso nefasto AI-5.
E Reynaldo Jardim? Alma, coração e máquina de escrever de poeta. Um criador. Um inventor. Abram os jornais de suas cidades e encontrarão um segundo caderno – ou coisa parecida – dedicado às artes, às colunas sociais, às crônicas, à programação de cinema e tudo quanto os editores não consideram notícias para o caderno principal. Esse poeta, nome emblemático no meio jornalístico bem informado, em 1960 criou o Caderno B do Jornal do Brasil, matriz de todos os congêneres no Brasil. Reorganizou jornais no país e sintonizou melhor emissoras de rádio.
Reynaldo Jardim e a jornalista Ana Arruda criaram, em 1967 o jornal-escola “Sol”, diariamente encartado no Jornal dos Sports, até então lido apenas pelos aficionados da área. De curta, mas intensa trajetória, até janeiro de 1968, o curso prático de Jornalismo marcou “alunos” e “professores”. Reynaldo inventou, também, uma diagramação revolucionária: o jornal era diagramado para ser dobrado em quatro, sem prejuízo da leitura. Entre os “alunos”, Tetê Medina, diretora, e Martha Alencar, que assina com Tetê o roteiro do filme.
Martha, mulher há séculos de Hugo Carvana, merece um parêntesis, trecho de um texto escrito por Tarso de Castro, um dos criadores do Pasquim, e transcrito no livro de Tom Cardoso sobre aquele jornalista, referente à prisão pelos milicos da turma que dirigia o jornal, exceto Millôr: “Alegaram muitos motivos para a nossa briga. Mas o principal da briga com Millôr foi a nossa prisão… Quem agüentou a barra foi Martha Alencar e Bárbara (Oppenheimer, mulher do Tarso na época), que estiveram respondendo por nós o tempo todo. Millôr se escondia de maneira vergonhosa”.
Chega, quem quiser mais que descubra o jeito de assistir a “O Sol – Caminhando Contra o Vento”. Veja e ouça uma enorme patota onde se misturam, principalmente, jornalistas, compositores, cineastas, artistas: Ana Arruda Callado, Betty Faria, Antônio Carlos Fontoura, Arnaldo Jabor, Caetano Veloso, Chico Buarque, Carlos Heitor Cony, Daniel Azulay, Gilberto Gil, Antônio Pedro, Fernando Gabeira, Hugo Carvana, Luiz Carlos Maciel, Márcio Moreira Alves, Ruy Castro, Vladimir Palmeira, Ziraldo e Zuenir Ventura.
Momentos como festivais da canção e o show histórico “Opinião”, que revelou Maria Bethânia para o Brasil, a passeata dos 100 mil, o discurso do deputado Marcio Moreira Alves que foi o pretexto para o AI-5 estão lá e valem algumas vezes os 90 minutos de projeção e o preço do ingresso.
Pungente, dolorosa e emocionante a declaração do novelista Gilberto Braga ao declarar que escreveu a série de TV “Anos Rebeldes” depois do relato de Tetê Medina, sua grande amiga, sobre as torturas que ela sofreu.
Confesso que saí do cinema como se houvesse acabado de ouvir um belo hino à vida, um hino de quem aceitou o convite de Caetano:
“…O sol é tão bonito
Eu vou …
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou … por que não, por que não?”
Por que não, por que não?
Inté

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