Avenida Calógeras, esquina Presidente Wilson, centro do Rio: Casa Villarino. Uma placa no interior do bar, de 1953 – ano de sua inauguração – consagra essa grafia. O jornalista Fernando Lobo confirmou a zorra em torno do nome – Vilarinho, Vilarino, Villariño – e, em livro de sua autoria, cortou um “l” e acrescentou um til sobre o “n”, em homenagem à óbvia origem espanhola: “À Mesa do Vilariño”. (Ver imagem abaixo)
A versão mais conhecida sobre o início da parceria Tom/Vinicius – e na qual eu, há tempos, peguei o bonde (metrô) errado – é a que eles foram apresentados naquele bar, em 1956, fato que não confere com o texto de Vinicius na contracapa do disco “Orfeu da Conceição”, daquele mesmo ano: “… um dos problemas mais sérios que me coube resolver foi a escolha do músico, de um compositor que pudesse criar para o Orfeu Negro uma música que tivesse a elevação do mito, uma música que unisse a Grécia clássica ao morro carioca, uma música que reunisse o erudito e o popular – uma música “poética” que, mesmo servindo ao texto, tivesse uma qualidade órfica. Numa conversa com meus amigos Lucio Rangel e Haroldo Barbosa foi-me ponderado o nome do jovem maestro e compositor Antonio Carlos Jobim, com quem eu de raro em raro privara em 1953, nas noites do finado Clube da Chave…”
O que aconteceu, de fato, é que o jornalista e crítico de música popular, Lúcio Rangel, tio de Tom, levou-ao ao Villarino e promoveu o encontro que, ao final, suscitou o episódio hilário que o próprio Tom gostava muito de divulgar. Sempre preocupado, na época, em ter dinheiro no final do mês para pagar o aluguel do apartamento na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, Tom não segurou a pergunta: “Tem um dinheirinho nisso?”
Naqueles anos de 1950, o Centro do Rio, ainda Distrito Federal, reunia quase todos os endereços que significassem trabalho, como repartições públicas, editoras literárias e musicais, livrarias, gravadoras de discos, jornais, emissoras de rádio e alguns bares famosos.
A Casa e Bar Villarino tinha um perfil semelhante a alguns outros locais do Rio: mercearia na entrada e bar mais aos fundos, onde a pedida mais freqüente, apesar do ambiente nada elegante, era o escocês, pois uísque nacional nem existia e, muito menos, o “paraguaio”.
A localização central do Villarino, face à proximidade com quase tudo, passou a ser, logo depois de inaugurado, talvez o bar carioca mais semelhante a um segmento do que foi a Confeitaria Colombo no início do século XIX e do que seria o Antonios”s de 1967, até cerca de 1990 e pelo mesmo motivo – a notoriedade da maioria de seus freqüentadores.
Antonio Bandeira, Di Cavalcanti e Pancetti rabiscaram na parede dos fundos – que se tornou um painel –, acrescido de diversos registros e assinaturas, onde Pablo Neruda, Vinicius de Moraes e outros deixaram versos. O time de craques, nas diversas posições, era grande: Aracy de Almeida, Dolores Duran, Elizete Cardoso, Ary Barroso, Antonio Maria, Fernando Lobo, Lúcio Rangel, Luís Jatobá, Mário Reis, Paulo Mendes Campos, Paulo Soledade, Rubem Braga e Sérgio Porto. Essa turma, mais a proximidade com o Ministério da Educação, fazia de Carlos Drummond de Andrade um eventual freqüentador. Irineu Garcia, presença assídua, detentor do selo Festa, gravou discos, com Drummond e outros, dizendo seus próprios poemas. Irineu, inclusive, gravou o “Pequeno Príncipe”, de Saint Exupéry, com Paulo Autran fazendo o personagem principal, mas essa história contarei à parte.
O famoso encontro no Villarino que selou a parceria de Tom em “Orfeu da Conceição”, peça de Vinicius premiada em concurso promovido em evento do IV Centenário da cidade de São Paulo, estreou no Teatro Municipal, do Rio, em 25 de setembro de 1956, com Haroldo Costa no papel título.
O filme “Orfeu Negro”, produzido pelo diretor francês Marcel Camus e filmado no Rio, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1959.
Nesta semana, dia 1°, Haroldo Costa, o “Orfeu” da primeira montagem – junto com o atual dono do bar e seu antigo garçom, Antonio Vasquez – vai reunir participantes do espetáculo que, há 50 anos estreou no Teatro Municipal. Entre eles, Chica Xavier, a “Eurídice” e ninguém menos que Oscar Niemeyer, responsável pela cenografia, um morro carioca.
Quem não deve comparecer é o Ademar Ferreira da Silva, nosso campeão mundial de salto triplo. Intérprete de pequeno papel no teatro e no filme, nosso campeão de salto triplo levou um “cano” duplo: não recebeu por nenhum dos dois trabalhos.
Inté.


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